segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Bienal age de modo cínico e intolerante ao lavar as mãos


Acusar a grafiteira Carolina da Mota, presa há 52 dias, de "danificar patrimônio tombado" é estratégia hedionda


Matéria de Paulo Herkenhoff, originalmente publicada na Folha de São Paulo, 15 de dezembro de 2008

Minha opinião ou a de qualquer outra pessoa sobre o grafite não tem a menor importância no caso da Carolina Pivetta da Mota na Bienal de São Paulo. Não se trata de condenar ou aplaudir a ação de grafitagem. Eu vi, em 1972, os seguranças do MAM carioca ajudarem Antonio Manuel a fugir da polícia que o perseguia porque havia se apresentado nu no Salão Nacional de Arte Moderna. O MAM do Rio não mandou prender Raimundo Colares quando quebrou vidros do prédio em manifestação durante a ditadura militar.

A Bienal quer que o Brasil sinta saudades da ditadura? A mesma Bienal que entrega a grafiteira à polícia foi a que proscreveu Cildo Meireles em 2006 por ter protestado contra a reeleição de Edemar Cid Ferreira para seu conselho.

O paradoxo é que Edemar não providenciou a prisão da garota que beijou com batom uma tela de Andy Warhol na Bienal de 1996, fato muito mais grave do que grafitar paredes nuas.

A Bienal, seu presidente, conselheiros e curadores que continuarem a se omitir precisam aprender algo com Edemar: na Bienal, a repressão não é um fim em si. Confesso que, quando soube da grafitagem, pensei que fosse um gesto autorizado numa Bienal que ia criar uma praça de convivência e estimulava a participação da cultura pop jovem. Era estratégia de marketing ou efetiva proposta de política cultural?

No entanto, tudo é obscurantista na posição da Bienal desde o dia da grafitagem. Posso até entender as reações de primeira hora mais agressivas por agentes culturais e políticos da Bienal, mas temos de admitir ser uma estratégia hedionda acusar a grafiteira de "danificar" o patrimônio tombado, já que as feiras, as festas de casamento e a própria Bienal furam e escrevem nas paredes, pintam e bordam com o prédio sem autorização do Iphan.

Se a grafiteira fosse um nome do mercado de arte não teria sido presa ou já estaria solta. O ato de Carolina Pivetta da Mota é rigorosamente igual a tudo o que ocorre no prédio da Bienal. Depois é só repintar, como aconteceu. Tudo se refaz porque o prédio da Bienal está à disposição da expressão. Sua estrutura original de feira industrial tinha que ser necessariamente versátil para atender a todo tipo de tranco físico. Por isso o acabamento sem adornos e luxo do Pavilhão do Ibirapuera. É só cimento, tijolo e cal.

Carolina também não interveio na obra de ninguém. Ela não é uma Tony Shafrazi, que grafitou a "Guernica" de Picasso. Se tivesse praticado um ato anti-social realmente grave, Carolina já poderia ter sido condenada a alguma prática comunitária na própria Bienal. Neste caso, não se estaria "domesticando" uma consciência crítica, mas dando-lhe a oportunidade de entender melhor o processo de uma Bienal. O que Carolina está contribuindo socialmente agora é a introduzir um debate na pasmaceira institucional.

Se tivesse causado um dano real à superfície das paredes, teria sido ínfimo. Dirigi um museu do Iphan onde uma ex-diretora causou danos em esculturas ao instalá-las ao ar livre, onde tomavam chuva ácida. O Iphan e o Ministério Público não pediram sua prisão quando se verificaram danos irreparáveis à pátina na escultura "A Faceira de Bernardelli".

No caso do grafite na Bienal, não ficaram seqüelas. Fui curador da 24ª Bienal de São Paulo, e minha monografia final no mestrado em direito pela Universidade de Nova York foi na área de direito constitucional. Nessa dupla condição, afirmo que o que vejo aqui é uma posição odienta da Bienal transferindo a responsabilidade por essa situação kafkiana para os órgãos do Estado como responsáveis por este processo.

Carolina não danificou nenhuma obra de arte. Por acaso, Oscar Niemeyer veio a público protestar contra a grafitagem como um "ataque" danoso ao pavilhão do qual é autor, como sempre fez quando degradam um projeto de sua autoria?

A Fundação Bienal primeiro agiu de modo intolerante e agora de modo cínico ao lavar as mãos.

Parece que estar em "vivo contato", proposta desta Bienal, está sendo entendido como exercício de ira ou crueldade que, afinal, estão entre as pulsões de morte da espécie humana. Ou é só vingança?

Afinal, alguém tem que pagar...

Mesmo que seja uma mulher, baixinha, gordinha que não conseguiu escapar da ineficiente vigilância da instituição como os outros 30 galalaus. Sua prisão serviu para salvar a honra dos vigilantes e o contrato da empresa com a Bienal... Parabéns a Carolina por não ter pensado na delação premiada para se safar da encrenca, mesmo depois de 52 dias sem um habeas corpus. Carolina Pivetta da Mota passou o dia de comemoração dos 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos numa cadeia em São Paulo. Isso não denigre a Bienal, nem São Paulo, nem o Brasil. Isso denigre a humanidade.

Se o vazio fosse de fato o espaço aberto para discutir a instituição, essa extraordinária grafitagem teria sido incorporada ao projeto ético e político da 28ª Bienal. A grafitagem já é um dos fatores mais marcantes desta edição.

Com mais repressão, deixará de ser um problema de excessivo rigor penitenciário para se tornar uma questão para estudos éticos curatoriais e debates estéticos.

Se a Fundação Bienal de São Paulo não se cuidar, a conclusão a que se poderá chegar é a de que o principal problema da Bienal é a 28ª Bienal e a estrutura política que a sustentou.

Peço desculpas a Carolina por não ter protestado, em minha recente palestra na Bienal, em sua defesa e contra esse estado brutal de condução da vida institucional. Eu pensava que já estivesse solta. Quem salva o Brasil e a Bienal não é cadeia, é Mário Pedrosa ao dizer que a arte é o exercício experimental da liberdade. E dirigir a Fundação Bienal de São Paulo ou fazer curadoria não pode perder isto de vista.

Paulo Herkenhoff é curador e crítico de arte. Dirigiu o Museu Nacional de Belas Artes, no Rio, e foi curador do MoMA em Nova York e da 24ª Bienal de São Paulo, em 1998

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Estas sinistras festas de Natal

Por Gabriel García Márquez*

Ninguém mais se lembra de Deus no Natal. Há tanto barulho de cornetas e de fogos de artifício, tantas grinaldas de fogos coloridos, tantos inocentes perus degolados e tantas angústias de dinheiro para se ficar bem acima dos recursos reais de que dispomos que a gente se pergunta se sobra algum tempo para alguém se dar conta de que uma bagunça dessas é para celebrar o aniversário de um menino que nasceu há 2 mil anos em uma manjedoura miserável, a pouca distância de onde havia nascido, uns mil anos antes, o rei Davi.

Cerca de 954 milhões de cristãos — quase 1 bilhão deles, portanto — acreditam que esse menino era Deus encarnado, mas muitos o celebram como se na verdade não acreditassem nisso. Celebram, além disso, muitos milhões que nunca acreditaram, mas que gostam de festas e muitos outros que estariam dispostos a virar o mundo de ponta cabeça para que ninguém continuasse acreditando. Seria interessante averiguar quantos deles acreditam também no fundo de sua alma que o Natal de agora é uma festa abominável e não se atrevem a dizê-lo por um preconceito que já não é religioso, mas social.

O mais grave de tudo é o desastre cultural que estas festas de Natal pervertidas estão causando na América Latina. Antes, quando tínhamos apenas costumes herdados da Espanha, os presépios domésticos eram prodígios de imaginação familiar. O menino Jesus era maior que o boi, as casinhas nas colinas eram maiores que a Virgem e ninguém se fixava em anacronismos: a paisagem de Belém era complementada com um trenzinho de arame, com um pato de pelúcia maior que um leão que nadava no espelho da sala ou com um guarda de trânsito que dirigia um rebanho de cordeiros em uma esquina de Jerusalém.

Por cima de tudo, se colocava uma estrela de papel dourado com uma lâmpada no centro e um raio de seda amarela que deveria indicar aos Reis Magos o caminho da salvação. O resultado era na realidade feio, mas se parecia conosco e claro que era melhor que tantos quadros primitivos mal copiados do alfandegário Rousseau.

A mistificação começou com o costume de que os brinquedos não fossem trazidos pelos Reis Magos — como acontece na Espanha, com toda razão —, mas pelo menino Jesus. As crianças dormíamos mais cedo para que os brinquedos nos chegassem logo e éramos felizes ouvindo as mentiras poéticas dos adultos.

No entanto, eu não tinha mais do que cinco anos quando alguém na minha casa decidiu que já era hora de me revelar a verdade. Foi uma desilusão não apenas porque eu acreditava de verdade que era o menino Jesus que trazia os brinquedos, mas também porque teria gostado de continuar acreditando. Além disso, por uma pura lógica de adulto, eu pensei então que os outros mistérios católicos eram inventados pelos pais para entreter aos filhos e fiquei no limbo.

Naquele dia — como diziam os professores jesuítas na escola primária —, eu perdi a inocência, pois descobri que as crianças tampouco eram trazidas pelas cegonhas desde Paris, que é algo que eu ainda gostaria de continuar acreditando para pensar mais no amor e menos na pílula.

Tudo isso mudou nos últimos 30 anos, mediante uma operação comercial de proporções mundiais que é, ao mesmo tempo, uma devastadora agressão cultural. O menino Jesus foi destronado pela Santa Claus dos gringos e dos ingleses, que é o mesmo Papai Noel dos franceses e aos que conhecemos de mais. Chegou-nos com o trenó levado por um alce e o saco carregado de brinquedos sob uma fantástica tempestade de neve.

Na verdade, este usurpador com nariz de cervejeiro é simplesmente o bom São Nicolau, um santo de quem eu gosto muito e porque é do meu avô o coronel, mas que não tem nada a ver com o Natal e menos ainda com a véspera de Natal tropical da América Latina.

Segundo a lenda nórdica, São Nicolau reconstruiu e reviveu a vários estudantes que haviam sido esquartejados por um urso na neve e por isso era proclamado o patrono das crianças. Mas sua festa é celebrada em 6 de dezembro, e não no dia 25. A lenda se tornou institucional nas províncias germânicas do Norte no final do século 18, junto à árvore dos brinquedos e a pouco mais de cem anos chegou à Grã-Bretanha e à França.

Em seguida, chegou aos Estados Unidos, e estes mandaram a lenda para a América Latina, com toda uma cultura de contrabando: a neve artificial, as velas coloridas, o peru recheado e estes 15 dias de consumismo frenético a que muito poucos nos atrevemos a escapar.

No entanto, talvez o mais sinistro destes Natais de consumo seja a estética miserável que trouxeram com elas: esses cartões postais indigentes, essas cordinhas de luzes coloridas, esses sinos de vidro, essas coroas de flores penduradas nas portas, essas músicas de idiotas que são traduções malfeitas do inglês e tantas outras gloriosas asneiras para as quais nem sequer valia a pena ter sido inventada a eletricidade.

Tudo isso em torno da festa mais espantosa do ano. Uma noite infernal em que as crianças não podem dormir com a casa cheia de bêbados que erram de porta buscando onde desaguar ou perseguindo a esposa de outro que acidentalmente teve a sorte de ficar dormido na sala.

Mentira: não é uma noite de paz e amor, mas o contrário. É a ocasião solene das pessoas de quem não gostamos. A oportunidade providencial de sair finalmente dos compromissos adiados porque indesejáveis: o convite ao pobre cego que ninguém convida, à prima Isabel que ficou viúva há 15 anos, à avó paralítica que ninguém se atreve a exibir.

É a alegria por decreto, o carinho por piedade, o momento de dar presente porque nos dão presentes e de chorar em público sem dar explicações. É a hora feliz de que os convidados bebam tudo o que sobrou do Natal anterior: o creme de menta, o licor de chocolate, o vinho passado.

Não é raro, como aconteceu freqüentemente, que a festa acabe a tiros. Nem tampouco é raro que as crianças — vendo tantas coisas atrozes — terminem acreditando de verdade que o menino Jesus não nasceu em Belém, mas nos Estados Unidos.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Artesã que pichou a Bienal de Arte de São Paulo continua presa


Há 40 dias Caroline Pivetta da Mota, de 23 anos, foi trancada numa cela na Penitenciária Feminina de Sant'Ana, em São Paulo, "lar" de presas perigosas. Antes ela passou três dias numa delegacia. Seu crime? Ter invadido o prédio da tradicional Bienal de Arte paulistana, no dia da sua inauguração, junto com outras 40 pessoas, para fazer pichações - ou, nas palavras delas, "intervenções"- num espaço deixado propositalmente vazio pela curadoria.

A ação foi liderada por Rafael Guedes, o Pixobomb, que procurou a mídia para "assumir a autoria". Ele foi responsável por recentes pichações na Faculdade de Belas Artes da USP e na galeria paulista Choque Cultural. Caroline, que afirmou ter ido apenas "assistir" às pichações, acabou entrando na onda.

Há uma certa pressão dos organizadores da Bienal para mantê-la presa. Eles classificaram o ato como crime e invasão, e não foi isso. Os próprios curadores disseram em entrevistas que gostariam que as pessoas interagissem com o vazio. E foi o que o grupo fez. Há uma discussão, inclusive nos autos do processo, sobre se pichação é arte ou crime. Para muitos jovens, a única maneira de se manifestar é com uma lata de tinta na mão - diz a advogada de defesa dela, Cristiane Souza de Carvalho.


A advogada contou que Caroline trabalha como artesã, vendendo bijuterias e camisetas estilizadas, e abandonou a escola no segundo ano do ensino médio por falta de dinheiro.

O tipo de grafismo feito pelos pichadores inspirou os artistas Eli Sudbrack e Christophe Pierson, do coletivo Assume Vivid Astro Focus, a criar uma instalação na qual lâmpadas coloridas de néon cobrem as paredes como traços de tinta spray. A obra pode ser vista na Casa Triângulo, em São Paulo. A dupla de artistas participou da Bienal com uma série de ações de encerramento.

leia o Manifesto pela imediata libertação de Caroline

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Morre Bolinha, primeiro dirigente da CUT na região


Faleceu neste domingo, dia 7, às 18h30, em Sorocaba, Wilson Fernando da Silva, o Bolinha, que presidiu o Sindicato dos Metalúrgicos da Região nos anos 80 e levou a categoria a ser uma das primeiras do país a se filiar à então recém-fundada CUT.

Bolinha tinha 57 anos de idade e há um ano lutava contra um câncer. Ele deixa esposa, Lucilia, três filhos Daniela (34), Francis (33), Camila (30) e três netos.

Amigo do presidente Lula desde a década de 60 e militante sindical metalúrgico do ABC nos anos 70, Bolinha mudou-se para Sorocaba em 1981. Logo empregou-se em uma metalúrgica local e, em 1983, disputou as eleições do sindicato e derrotou a diretoria de então, considerada atrelada ao empresariado e simpática ao regime militar.

Mesmo em Sorocaba, Bolinha não perdeu contato com Lula, pois, além do companheirismo entre eles desde a época das históricas lutas sindicais do ABC, as famílias de ambos desenvolveram laços de amizade.

Ao longo de sua trajetória, Bolinha também conquistou a admiração e o respeito de outras lideranças de projeção do PT, como o senador Aloísio Mercadante e os deputados federais Vicentinho e Arlindo Chinaglia, entre outros. É esperada a presença de algumas dessas lideranças no velório do sindicalista de Sorocaba.

Bolinha está sendo velado na sede do Sindicato dos Metalúrgicos, na rua Júlio Hanser, 140, perto da rodoviária de Sorocaba. O sepultamento será nesta segunda-feira, dia 8, às 16h, no cemitério Pax, em Sorocaba.

Bolinha foi eleito presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Sorocaba e Região por duas gestões: 1983/86 e 1986/89. Ele deixou a diretoria em 1989, mas retornou em 1992, quando foi eleito membro da executiva. Em 1998 ele deixou definitivamente a direção sindical.

Bolinha estava aposentado, mas lideranças políticas e sindicais, da CUT, do PT e de movimentos sociais da região de Sorocaba nunca deixaram de procurar os conselhos e orientações do pioneiro e carismático líder.

“Bolinha dava um conselho aos novos dirigentes que considero a síntese da personalidade dele mesmo. Ele dizia que ao bom militante não devem faltar duas virtudes: a capacidade de indignar-se diante das injustiças e a consciência de que é necessário ser um eterno aprendiz” - Carlos Roberto de Gáspari, que presidiu o sindicato de 1992 a 1995 e de 1995 a 1998.

“Bolinha era nossa principal referência política. Ele construiu o alicerce dos movimentos sindical e social na região. Uma pessoa inteligente, decidida, idealista, convicta ... mas extremamente generosa e sensível. Um exemplo de líder e de ser humano para todos os que conviveram com ele” — Izídio de Brito Correia, presidente do Sindicato desde 1998

“Bolinha não veio ao mundo para ser coadjuvante. Ele veio para ser protagonista. Em tudo o que ele participava, era líder. Era de uma inteligência incomum, de uma garra contagiante e, ainda, extremamente simpático. Conquistava a todos que conviviam com ele” – Hamilton Pereira, deputado estadual (PT-SP) e ex-diretor do Sindicato dos Metalúrgicos de Sorocaba e Região.

fonte: site do deputado Estadual Hamilton Pereira

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Sorocabano recebe prêmio Zumbi dos Palmares na Assembléia Paulista


O agente cultural sorocabano, Márcio Roberto Brown, será homenageado nesta quarta-feira (26/11), pela Assembléia Legislativa de São Paulo (Alesp), com o prêmio Zumbi dos Palmares. Brown foi indicado pelo deputado estadual Hamilton Pereira (PT) por ter se destacado na ação em defesa da promoção da igualdade racial e luta contra o racismo.


Membro da ONG Ação Periférica que atua junto ao segmento negro, Brown também é diretor do documentário "Hip Hop em Movimento", que conta a vida de pessoas envolvidas com essa cultura. O agente cultural iniciou no Hip Hop no final da década de 80 e permanece até hoje atuando na difusão da cultura black.

“Posso afirmar com segurança que o Brown tem uma vida dedicada ao hip hop, ao movimento negro e à busca de mudar a realidade social que permeia a vida das pessoas que integram essa parcela da população”, observa Hamilton. “Pelo seu trabalho, Brown tem obtido o reconhecimento da sociedade, tanto que se tornou uma forte referência em Sorocaba para as ações afirmativas em defesa da promoção da igualdade racial”, completa.

A entrega do Prêmio Zumbi dos Palmares faz parte do calendário da Semana da Cultura Negra organizada, na Assembléia Legislativa de São Paulo, pela Frente Parlamentar de Promoção da Igualdade Racial, pelo Grupo de Negros e Negras da Alesp e pela Mesa Diretora da Casa.

Zumbi nasceu escravo em 1655, fugiu para o Quilombo dos Palmares e se transformou no maior símbolo da resistência negra contra a escravidão. Zumbi e toda a comunidade do Quilombo resistiram durante muitos anos corajosamente aos ataques da milícia portuguesa. Em 20/11/1694, o líder quilombola foi capturado e morto numa emboscada.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Cidades destruídas e terroristas de verdade

Há mais de quinze anos, numa tenebrosa noite de inverno em Iowa City, eu, um amigo argentino e uma espanhola saímos de uma livraria e entramos no primeiro bar à vista. Não me lembro qual era a temperatura externa; mas como estávamos em novembro, devia ser algo próximo a seis graus centígrados, com uma margem de erro de três graus (para baixo). Pedi uma taça de conhaque, folheei um livro de poesia de Walt Whitman e, lá pelas tantas, quando me senti menos esquimó e mais brasileiro, começamos a falar sobre Buenos Aires.

Naquela época eu ainda não conhecia Buenos Aires; no entanto, essa bela cidade existia na minha imaginação: ruas, bairros, parques, bares e personagens com os quais me havia deparado na leitura de contos e romances argentinos. De alguma maneira, a cidade não me era desconhecida, e essa familiaridade livresca foi uma espécie de bússola quando visitei Buenos Aires pela primeira vez. Parecia que estava voltando para lá, e que a viagem anterior, a imaginária, era quase mais real que a verdadeira.

Lembro que o meu amigo argentino, o escritor Rodrigo Fresán, começou a criticar com ironia seu país, e em algum momento nós dois criticamos nossos respectivos países. Minha crítica era um pouco mais amarga. Disse: Há poucos anos (1992) o presidente do Brasil, acusado de corrupção, foi destituído pelo congresso. E isso depois de vinte e cinco anos de ditadura.

Tragédias não nos faltam, disse Rodrigo. Aposto com você que a história da Argentina é muito mais trágica que a do Brasil.

Antes de enumerarmos os desastres de cada pátria, nossa amiga Anatxu interveio: A Espanha não fica atrás. Somos essencialmente trágicos. Mas não vamos falar de coisas tão tristes. Vocês conhecem Barcelona? Na minha juventude eu tinha morado em Barcelona, e as lembranças da capital da Catalunha eram mais ou menos nítidas. Contei para Anatxu e Rodrigo os lugares por onde caminhava por Gracia, o bairro onde morei seis meses; enumerei ruas e bares do bairro Gótico, de Barceloneta e do velho porto mediterrâneo. (Sabe-se que alguma coisa mudou depois das Olimpíadas de 1992, mas a fisionomia da cidade não foi alterada).

Tens uma memória e tanto, disse Anatxu.

Não é isso, eu disse. É que algumas cidades européias foram destruídas durante as guerras. No Brasil, a destruição das cidades é cotidiana. Quem morou no Rio, Recife ou São Paulo na década de 1940, quase não reconhece sua cidade hoje. Quer dizer, reconhece, mas muita coisa da memória urbana foi apagada para sempre.

Tentei explicar como, a partir da década de 1970, a especulação imobiliária, a ignorância de políticos, e a ganância de certas construtoras e instituições destruíram edifícios históricos e logradouros públicos em nome do "progresso". Seria algo como derrubar os belos edifícios da Recoleta e do bairro de Gracia para construir templos religiosos horrorosos ou torres não menos horrorosas de vinte ou trinta andares.

Mas por que vocês não protestam, perguntou Anatxu.

Hesitei, pensei em indicar-lhe a leitura de Raízes do Brasil, mas optei pelo silêncio. Um silêncio que traduzia impotência ou vergonha. O mesmo silêncio que me deprime quando vejo um alto magistrado declarar que os brasileiros que combateram a ditadura eram terroristas.

Pensava nas nossas cidades destruídas e na declaração desse alto magistrado quando encontrei por acaso o Jam, um velho amigo advogado. Jam estava revoltado com a declaração do juiz da suprema corte. Que belo exemplo cívico, ele exclamou, com ironia. Quanta lucidez histórica! E quanto menosprezo pelas vítimas dos torturadores, pelos jornalistas e operários e professores e tantos outros profissionais perseguidos e demitidos sumariamente!

Meu amigo tem razão. Esse senhor togado esqueceu que os militares golpistas de 1964 interromperam com ódio e brutalidade um governo eleito democraticamente. Esqueceu que eles, os magistrados, foram humilhados e ridicularizados por esses mesmo golpistas. Quanta diferença entre esse magistrado brasileiro e o juiz espanhol Baltasar Garzón, que moveu uma ação contra o ex-ditador Augusto Pinochet, acusado de assassinar milhares de chilenos.

Talvez seja essa a resposta à minha amiga espanhola: a Lei, na América Latina, não raramente protege os algozes e difama as vítimas. E isso serve para as nossas cidades destruídas, para os julgamentos de corruptos de colarinho branco, e torturadores e assassinos a mando de um Estado de exceção. Esses, sim, foram os verdadeiros terroristas, como disse meu amigo advogado Jam.

Milton Hatoum

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

O Porquê do Desprezo à Auto-Ajuda

Saiu na revista Vida Simples uma matéria chamada "O Grande Não", que fala da dificuldade das pessoas em se opôr a algumas situações.

É, de fato, uma matéria atrativa e bem escrita. A linha fina diz: "Ter firmeza de atitude e saber negar é uma arte que pode transformar sua vida. Descubra por que é legal não ser legal o tempo inteiro". Parece interessante, não? Mas quais os efeitos disso?

A revista coloca como se fosse um problema fácil de se solucionar. Você não sabe dizer não? "Experimente ser egoísta de vez em quando!", "Se não tiver certeza do seu sim, enrole. Peça tempo para pensar.", "Mude de opinião quantas vezes quiser".

Se o problema do indivíduo fosse unicamente não saber dizer não, estaria resolvido! Mas quem disse que o ser humano é superficial, assim? Ninguém nasce simplesmente sem saber dizer não. Por trás desta dificuldade podem haver mil questões a ser trabalhadas: medo de rejeição é uma delas, sim, como a própria revista cita. Mas de onde vem esse medo de ser rejeitado? É só isso, ou este medo soma-se a algum outro fator? Será que a pessoa realmente não sabe dizer não? Ou usa este medo para justificar situações onde, no fundo, ela queria mesmo dizer sim?

Eu, pessoalmente, conheço pessoas que usam a pose do "não sei dizer não" para manipular outras. Quer comportamento mais egoísta que esse? E aí o sujeito lê na revista: "Experimente ser egoísta!" - percebem a dimensão do problema?

Sem falar nos que apelam à literatura/jornalismo de auto-ajuda para dispensar a psicoterapia. O resultado é um grande passo pra trás, pois a pessoa acredita que está melhorando, quando na verdade está reprimindo sintomas. É como tomar Engov pra ressaca e se acabar na cerveja na semana seguinte. Até fazer uma cirrose, aí ele para de beber e vai procurar tratamento.

O que está por trás de tudo isso? Uma cultura imediatista, onde tudo é muito simples, basta comprar o remédio, o livrinho, ou o que seja. Não precisa pensar, refletir, digerir. A felicidade está a um passo - basta abrir a carteira.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Não fosse o Brasil, jamais Barack Obama teria nascido

Na noite do dia 25 de setembro de 1956, estreou no Teatro Municipal do Rio de Janeiro a peça Orfeu da Conceição, do poeta brasileiro Vinícius de Morais (1913-1980). Esta peça é uma adaptação do mito grego do lendário cantor Orfeu, cuja lira, dotada de sons melodiosos, amansava as feras que vinham deitar-se-lhe aos pés. Filho da musa Calíope, ele resgatou a sua esposa Eurídice do Inferno, após ela ter sido picada por serpente. A história de Vinícius decorre numa favela carioca, durante os três dias de carnaval.

Em 1959, o diretor francês MarceI Camus transpôs a peça para o cinema. Daí surgiu o filme Orfeu Negro, com músicas de Luiz Bonfá e Tom Jobim, a negra atriz americana Marpessa Dawn, os negros brasileiros Breno Mello, Lourdes de Oliveira e Adhemar da Silva. Cheio de belas imagens, como a do romper do sol na favela, a do aparecimento da Morte numa central elétrica, e ainda com o som dos sambas empolgantes, a película baseada na obra do letrista de "Garota de Ipanema", além de alcançar grande sucesso comercial, ganhou a Palma de Ouro do Festival de Cinema de Cannes e o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em Hollywood.

Pois bem, nesse ano de 1959, uma jovem americana de dezesseis anos, extremamente branca, sem um pingo de sangue negro, chamada Stanley Ann Dunham, nascida no Kansas, resolveu assistir em Chicago ao primeiro filme estrangeiro de sua existência. Foi ver o Orfeu Negro, só com atores negros, paisagens brasileiras, música brasileira, história brasileira. Ela saiu do cinema em estado de êxtase, maravilhada. Adorou aqueles negros encantadores de um país tropical e logo admitiu:

"Nunca vi coisa mais linda, em toda a minha vida."

Depois de tal arrebatamento, a jovem Stanley embarcou para o Havaí. E ali, aos dezoito anos, ela se tornou colega, numa aula de russo, de um jovem negro de vinte e três anos, Barack Hussein Obama, nascido no Quênia. A moça branca do Kansas, influenciada pelo filme Orfeu Negro, entregou-se a ele e dessa união inter-racial, nasceu em 4 de agosto de 1961 um menino, a quem ela deu o mesmo nome do pai e que é agora, aos quarenta e seis anos, o primeiro candidato negro à presidência dos Estados Unidos.

Eis um detalhe perturbador: comparando duas fotografias, descobri enorme semelhança física entre o brasileiro Breno Mello, o Orfeu do filme Orfeu Negro, e o queniano Barack Hussein Obama, pai do filho da americana Stanley Ann Dunham.

No começo da década de 1980, ao visitar o seu filho em Nova York, a senhora Stanley o convidou para ver o filme Orfeu Negro. Segundo o depoimento do próprio Barack, no meio do filme ele se sentiu entediado, quis ir embora. Disposto a fazer isto, desistiu do seu propósito, no momento em que olhou o rosto da mãe, iluminado pela tela. A fisionomia da senhora Stanley mostrava deslumbramento. Então o filho pôde entender, como se deduz da sua autobiografia, porque ela, tão branca, tão anglo-saxônica, uniu-se ao seu pai, tão negro, tão africano...

Não há dúvida, a sexualidade às vezes percorre caminhos misteriosos, que alteram de modo decisivo os rumos da história universal.

Se não fosse o fascínio da branca mãe de Barack Obama pelo filme Orfeu Negro, ela não se entregaria ao rapaz queniano, um preto retinto.

A rigor, sem o Brasil, sem a história do poeta brasileiro Vinícius de Morais, o filme Orfeu Negro não existiria. Portanto, se não fosse o Brasil, jamais Barack Obama teria nascido.

Apresenta uma lógica perfeita, a nossa conclusão. E avanço mais: se ele for eleito, o meu país, a pátria de Lula, será a causa da mudança da historia dos Estados Unidos. Aliás, o Brasil já mudou essa história...

autor: Fernando Jorge

domingo, 2 de novembro de 2008

El Condor Pasa



El Cóndor Pasa é uma obra teatral musical, classificada tradicionalmente como zarzuela, à qual pertence a famosa melodia homônima. A música foi composta pelo compositor peruano Daniel Alomía Robles e a letra, por Julio de La Paz, (pseudônimo de Julio Baudouin). No Peru, foi declarada Patrimônio cultural da Nação, em 1993.

A história transcorre no assentamento mineiro Yapaq de Cerro de Pasco, Peru e constitui-se uma obra de denúncia social. É a tragédia do enfrentamento de duas culturas: a anglo-saxônica e a indígena. A exploração de Mr. King, dono da mina, tem sua culminação na vingança de Higínio, que o assassina. Mas, para substituí-lo, chega Mr. Cup. E a luta tem que ser reiniciada, e o condor que voa nas alturas é o símbolo da desejada liberdade.

A letra

Ó majestoso Condor dos Andes,
leva-me ao meu lar, nos Andes,
Ó Condor.
Quero voltar à minha terra querida e viver
com meus irmãos Incas, que é o que mais anseio
Ó Condor.

Em Cusco, na praça principal,
espera-me, para passearmos em
Máchu Pícchu e Huayna Pícchu.

sábado, 1 de novembro de 2008

O Mercado e os burros (ou, os burros do mercado)

Uma vez, num pequeno e distante vilarejo, apareceu um homem anunciando que compraria burros por R$10,00 cada. Como havia muitos burros na região, os aldeões iniciaram a caçada. O homem comprou centenas de burros a R$10,00, e como os aldeões diminuíram o esforço na caça, o homem anunciou que pagaria R$20,00 por cada burro.

Os aldeões foram novamente à caça, mas logo os burros foram escasseando e os aldeões desistiram da busca. A oferta aumentou então para R$25,00 e a quantidade de burros ficou tão pequena que já não havia mais interesse em caçá-los. O homem então anunciou que compraria cada burro por R$50,00! Como iria à cidade grande, deixaria seu assistente cuidando da compra dos burros.

Na ausência do homem, seu assistente propôs aos aldeões: - "Sabem os burros que o homem comprou de vocês? Eu posso vendê-los a vocês a R$35,00 cada. Quando o homem voltar da cidade, vocês vendem a ele pelos R$50,00 que ele oferece, e ganham uma boa bolada".

Os aldeões pegaram suas economias e compraram todos os burros do assistente. Os dias se passaram, e eles nunca mais viram nem o homem, nem o seu assistente, somente burros por todos os lados.

Entendeu agora como funciona o mercado de ações?

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

O mercado financeiro também tem sentimento

Pessoal, vejam esse vídeo incrível, extremamente didático sobre a crise financeira, envolvendo as hipotecas, os bancos etc... e saibam mais sobre os sentimentos do mercado.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Galo e Cruzeiro e um jazz no coração

Por ROBERTO AMARAL


Quando jogam Atlético e Cruzeiro, como acontecerá no domingo que vem, eu me lembro do meu pai.

Eu tinha 11 anos quando vi meu pai ser levado pela Polícia Política.

A gente morava ali na rua do Ouro, no bairro da Serra, perto da Volla Rizza.

Era domingo, eu acabara de acordar quando os homens da polícia apareceram na minha casa.

Eles chegaram numa Rural cor de café com leite e ficaram parados na porta, e na outra esquina, mais adiante, um Jeep do exército com dois homens dentro observavam tudo.

Foi a dona Bela, uma italiana de peitos grandes, que morava defronte a nossa casa, quem avisou a minha mãe de que a polícia rondava o nosso portão.

Minha mãe desligou o telefone, abraçou o meu pai (que comia pão com manteiga) e começou a chorar.

Meu pai adorava comer pão molhado no café.

Eu fiquei ali, olhando para o chão com o cadarço do sapato desamarrado enquanto a minha mãe chorava abraçada com o meu pai.

Meu pai foi preso vestido com a camisa do Atlético.

Era a de número 9, do artilheiro Dario Peito de Aço.

Aquele domingo era dia de clássico no Mineirão e, pela primeira vez na vida, meu pai ia me levar para ver uma de suas paixões: o futebol.

Naquela época algumas reuniões do Partidão eram feitas em dias de grandes jogos no Maracanã, Morumbi, Fonte Nova, Beira Rio e nos Aflitos.

Era uma tática para despistar os caçadores de aparelho.

O meu pai foi preso ao ser denunciado por um "cachorro".

Cachorro era o nome que a polícia dava ao espião infiltrado no partido a serviço do exército brasileiro.

Acompanhei o jogo deitado na cama da minha mãe, ouvindo o mesmo radinho de cabeceira em que meu pai acompanhava a Voz do Brasil e o repórter Esso.

Enquanto ouvia o jogo, a minha mãe ficava ao telefone tentando mobilizar amigos influentes para saber notícias de meu pai.

O Atlético derrotou o Cruzeiro por três a dois e Dario Peito de Aço foi quem marcou o gol da vitória.

O genial Vilibaldo Alves parecia querer prestar uma homenagem ao meu pai narrando o terceiro gol do Galo: Adivinhe ! goooooooool Daaaarioooo! Daaaaaariooooo! Daaaaaariooo! Daaaaariooo! Peito de Aço!!!

Quando o jogo terminou, eu corri para a janela na esperança de ver o meu pai, que nunca mais voltou.

Agora, todas as vezes em que jogam Atlético e Cruzeiro eu me lembro dele, dentro do carro da Polícia Política, vestido com a camisa do Atlético.

Era a de número 9.

Todas as vezes que jogam Atlético e Cruzeiro, um jazz toca no meu coração.


*Roberto Amaral é jornalista da Rede Minas, em Belo Horizonte.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Uma reveladora experiência de rua no domingo da eleição na maior cidade do País

Como Kassab ultrapassou Marta
Por Mauro Carrara (publicado no Blog do Azenha)

Conforme costume antigo, costumo visitar velhos amigos em dias de eleição. Perambulo pela cidade à procura do "espírito" da eleição, pois, sim, cada uma tem o seu, das barbadas aos prélios mais renhidos.

Desde cedo, notei certa tendência de defecção nos redutos "progressistas". Havia nos fundos do Tucuruvi um jovem negro, em trajes de grife surfe, distribuindo discretamente santinhos de Kassab. Vejam bem, ele não fazia campanha para um candidato à vereança, mas para o majoritário. Só.

O rapaz é estudante do terceiro ano do segundo grau, comprou recentemente seu primeiro computador, a crédito. O pai é vigia (conseguiu carteira assinada há três anos) e a mãe é diarista. Ele atualmente não trabalha regularmente. Nos fins de semana, atua como assistente de som em bailes na região dos Jardins. É o típico emergente da nova classe C.

João (vamos chamá-lo assim) afirma que o governo Lula "acostuma mal os vagabundos" com o Bolsa Família. A mãe sempre votou em Marta, mas o pai costuma odiar qualquer petista. "Meu velho não quer saber do casamento gay em São Paulo, nem eu", sentencia, alisando a sobrancelha. Mais tarde, encontro-me na região do Jardim Aricanduva, na Zona Leste. Márcia (vamos chamá-la assim) come uma coxinha num bar próximo a uma escola estadual. Vai votar em seguida.

Tem uma colinha de Kassab (DEM) e de um candidato a vereador do PSDB. - Vai votar em quem?

- Dessa vez é no Kassab – revela a moça, que graças ao crescimento da renda familiar (ela e dois irmão conseguiram emprego nos últimos três anos) pôde matricular-se numa faculdade privada.

- Por que nele?

- É o menos pior...

- E pra vereador? - Voto é segredo. Mas vai ser no PSDB. Um amigo da faculdade me indicou. É um cara que escreveu vários livros de auto-ajuda.

- É o Chalita (ex-secretário estadual de educação)?

- A gente precisa de pessoas cultas na Câmara. Esse aí é o melhor escritor do Brasil. - O que você já leu dele?

- Ainda não li, porque não tenho tempo. Mas esse meu amigo diz que é muito bom.

- A Marta era mais forte por aqui, não era?

- Era, mas ela fez o apagão aéreo e mandou o povo gozar depois do estupro. Tem como uma pessoa passar uma hora, uma hora e meia, esperando o avião?

- Como?

- O povo ficar horas esperando o avião...

- É chato mesmo – respondo. – Mas você já viajou de avião? – indago.

- Nunca. O mais longe que fui na vida foi para Mongaguá (litoral sul).

- Entendo. E o trânsito em São Paulo?

- Péssimo. Entre metrô e ônibus, fico umas 4 horas e meia no transporte, todo dia. Não anda. - E de quem é a culpa? - Sei lá... Tem muito carro na rua. Precisava fazer alguma coisa.

- E você não acha que o Kassab tem alguma responsabilidade nisso?

- (silêncio)... Não sei. Não parei para pensar.

- Isso afeta sua vida, não? - Muito, mas a gente tem que lidar com isso...

Quase cinco da tarde, na região dos Jardins. O filho de um amigo chega da votação com três colegas. O rapaz é o único que votou em Marta Suplicy. Dos colegas, dois preferiram Kassab. O outro votou em Geraldo Alckmin.

- Na verdade, eu e toda minha família somos malufistas, mas o Kassab é o único que pode ganhar dessa "vaca" da Martaxa – diz Paulo (vamos chamá-lo assim), exaltado.

- Sim, as taxas devem ter prejudicado muito sua família... – pondero.

- Meu pai fez a empresa dele sem ajuda de ninguém. A gente ta cansado de pagar os impostos que o PT inventou. Cada dia tem um imposto novo.

- Que imposto novo? - Vários.

- Mas quais?

- Vários. Tudo para sustentar vagabundo nordestino. E olha que eu não sou nem um pouco racista. Tenho até amigo japonês, negro, de todo tipo. Mas com esse negócio de bolsa, o cara se acostuma a não trabalhar e fica tomando cachaça o dia inteiro. É preciso ensinar o cidadão a pescar, e não dar o peixe.

- Mas o Bolsa Família está integrado a vários projetos de promoção e inclusão. Tem a contrapartida educativa... – tento argumentar, quando sou interrompido.

- Tem nada. Isso aí é coisa da mídia que o Lula comprou.

- Mas a mídia costuma ser contra o presidente – afirmo.

- Nada disso. O senhor viaja muito, pelo que eu sei, não é? Aqui, eles inventam pesquisa para dizer que a vida do povão melhorou. Melhorou nada.

- Mas e os dados do Ipea, do IBGE?

- Eu estudo Administração. Isso é tudo mentira.

- Quer dizer que o país não melhorou em nada?

- Esse semi-analfabeto deu sorte. Aproveitou o Plano Real e o crescimento da China... Agora, quero ver. Estou só esperando para ver o que vai acontecer. E vou dar risada.

- Mas o país não estava muito bem em 2.002 – intervenho.

- O PT é o "partidão", não é?

- Não que eu saiba – respondo.

- É sim... Eu abri os olhos de muito colega sobre esse comunismo disfarçado aí... Nessa eleição, eu convenci muito petista a votar no Kassab.

- Quem?

- O nosso motorista, o jardineiro que vai lá em casa...

Já são 18h20... Alguém grita do interior da casa: "o Kassab está ganhando". Os três jovens urram de prazer. Está se iniciando a longa noite até o segundo turno.

domingo, 5 de outubro de 2008

HEGEMONIA ÀS AVESSAS

Universidade de São Paulo
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas
Campus Cidade Universitária

Anfiteatro da Geografia


Seminário Internacional do Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania – Cenedic

HEGEMONIA ÀS AVESSAS
Economia, Política e Cultura na Era da Servidão Financeira

– 21/22/23/24 de Outubro de 2008 –

21 de outubro

17:30: ABERTURA – Gabriel Cohn (USP)

19:00 – O TRABALHO APÓS O DESMANCHE

Ricardo Antunes (Unicamp)

Arne L. Kalleberg (Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill)

Yves Cohen (École de Hautes Études en Sciences Sociales - EHESS)

22 de outubro
14:00 – A CULTURA DA SERVIDÃO FINANCEIRA

Maria Elisa Cevasco (USP)

Luiz Martins (USP)

Pedro Arantes (USP)


19:00 – DOMINAÇÃO FINANCEIRA E MERCADO DE TRABALHO NO BRASIL

José Dari Krein (Unicamp)

Alexandre de Freitas Barbosa (Cebrap)

Márcio Porchmann (IPEA-Unicamp)


23 de outubro
10:00 – A AMÉRICA LATINA NA ENCRUZILHADA

Carlos Eduardo Martins (UFF)

Ary Minella (UFSC)

Gilberto Maringoni (Faculdade Casper Líbero)


14:00 –DO APARTHEID AO NEOLIBERALISMO

Dennis Brutus (Universidade de KwaZulu-Natal – África do Sul)

Omar Thomaz (Unicamp)

José Luis Cabaço (Universidade Eduardo Mondlane - Moçambique)


19:00 – O SOCIALISMO APÓS O DESMANCHE

Alvaro Bianchi (Unicamp)

Brian Palmer (Trent University)

Wolfgang Leo Maar (UFSCar)

24 de outubro
10:30 - TEATRO E DESMANCHE URBANO

Sérgio de Carvalho (Cia do Latão)

Eugênio Lima (Núcleo Bartolomeu de Depoimentos; Frente 3 de Fevereiro)

José Fernando (USP, Teatro de Narradores)

14:00 – A CIDADE E A MISÉRIA DA POLÍTICA

Cibele Rizek (USP)

Mariana Fix (USP)

João Whitaker (USP)

Carlos Viener (UFRJ)


Mostra: O CINEMA DO DESMANCHE
Coordenação: Paulo Menezes (USP)

Filmes:

“Cronicamente inviável” de Sergio Bianchi.

“Os 12 trabalhos” de Ricardo Elias.

“O invasor” de Beto Brant.

Debate sobre os filmes da mostra dia 24 de outubro com Paulo Arantes e Paulo Menezes na sala 08 às 17:30

19:00 – ENCERRAMENTO

HEGEMONIA ÀS AVESSAS: DECIFRA-ME... OU TE DEVORO!

Francisco de Oliveira (USP)

Carlos Nelson Coutinho (UFRJ)

Paulo Arantes (USP)

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Globalização do grampo

Advogado reclama a Condoleezza Rice de grampo brasileiro

O advogado do banqueiro Daniel Dantas em Nova York, Philip C. Korologos, remeteu à secretária de Estado dos Estdos Unidos, Condoleezza Rice, carta de 112 linhas, datada de 15 de setembro passado, em que reclama do governo federal do Brasil, da PF e do Ministério da Justiça. Motivo: diz que as conversas entre Daniel Dantas e o escritório de advocacia Boies, Schiller & Flexner LLP foram interceptadas pela PF.
Segundo Korologos, o direito do sigilo nas comunicações entre advogado e cliente, que é garantido por lei tanto nos Estados Unidos como no Brasil, foi violado com a interceptação de e-mails, conversas pelo sistema de telefones Skype ou mesmo videoconferências. A carta do escritório BSF para a secretária de Estado americana foi obtida com exclusividade pela revista Consultor Jurídico.
O advogado Korologos defende Dantas no processo que o Citicorp move contra o banqueiro e o banco Opportunity, referente à disputa pelo controle da operadora de telefonia Brasil Telecom. Korologos sustenta que a PF fez uso dessas conversas sigilosas, entre advogado e cliente, e as incorporou à Operaçã Satiagraha, que levou Dantas à cadeia. “Pedimos assim qualquer assistência que o Departamento de Estado possa nos dar”, roga Korologos à Secretária de Estado.
Na carta, endereçada à “honorável Condoleezza Rice”, Korologos diz que fala em nome do escritório BSF e para para trazer a seu conhecimento a interceptação, e conseqüente divulgação, de comunicações legais e do trabalho advocatício, produzidas em conexão com a chamada Operação Satiagraha, uma investigação da Polícia Federal do Brasil. “O acesso e quebra de sigilo de documentos e de trabalho legal produzido pelo escritório BSF é uma brutal violação das relações entre o escritório e seu cliente, o Oportunity. Também entendemos que tal quebra de confidencialidade viola a lei brasileira,” acrescenta o advogado americano.
Segundo Korologos, “dada a distância fizemos uso de e-mails e conferencias via fone e videofone. Isso nos EUA é protegido pela legislação, de forma a que as informações entre cliente e advogado possam fluir sem o receio que tais detalhes sejam revelados a outros. É também um princípio fundamental legal nos EUA que o produto do trabalho de um advogado, especialmente quando há ligações com uma litigância pendente, ainda em segredo de Justiça”, esteja protegido pelo sigilo”.
Korologos em seguida faz um arrazoado jurídico de 12 linhas, em que vindica o New York Civil Practice Laws and Rules, artigo 4503, a1, que prevê o segredo de justiça naquele estado americano, onde corre o processo do Citicorp contra o Opportunity. E prossegue. “Contrariamente a estas leis, desde fevereiro de 2007 a Polícia Federal do Brasil interceptou as comunicações privadas do escritório BSF e as incorporou a relatórios produzidos e preparados pela PF, que depois foram tornados públicos. “Também formos informados que membros da imprensa brasileira estão de posse de centenas, se não de milhares, de e-mails trocados entre nosso escritório e o Opportunity”.
Korologos encerra a carta pedindo a atuação do Departamento de Estado americano junto ao governo brasileiro para que se ponha fim às interceptações de comunicações entre o BSF e o Opportunity e Daniel Dantas. Pede também que sejam retirados dos autos e destruídos os documentos e informações obtidos de forma ilegal. Finalmente, pede a destruição de todas as cópias das interceptações que estejam sob o controle, posse ou custódia da Polícia Federal, Ministério da Justiça do Brasil, tribunais brasileiros e qualquer braço do governo federal do Brasil”.
Revista Consultor Jurídico, 2 de outubro de 2008

http://www.conjur.com.br/static/text/70416,1

Nova dica de filme velho


Quem me indicou "Muito Além do Jardim" foi uma antiga supervisora, para que refletíssemos sobre a ansiedade em interpretar palavras que, muitas vezes, não tinham nenhum conteúdo profundo, nada além daquilo que diziam objetivamente.


Visto por um outro lado, pode mostrar também que, no fundo, tudo depende da nossa interpretação.


"Às vezes, um charuto é apenas um charuto..."

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Ginásio de esportes de Joinville

Sonho do arquiteto Caiuby se realiza em Joinville antes de Sorocaba.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Despojos de García Lorca serão exumados na Espanha

Os restos mortais do poeta espanhol Federico García Lorca serão desenterrados. A família do escritor autorizou a abertura da vala comum onde a ossada do escritor permanece desde que foi fuzilado na Guerra Civil da Espanha, há 72 anos.

Os descendentes de Lorca vinham resistindo a autorizar a exumação, mas cederam ante à pressão nos tribunais dos parentes de outros enterrados na mesma vala, mas temem que a exumação se transforme em um “espetáculo”.

A sobrinha do poeta, Laura García Lorca, disse nesta quinta-feira em Granada (sul do país) que a família sempre se opôs à exumação, mas que “não haverá mais impedimentos por respeito aos sentimentos de todos”.

O que ainda não está resolvido é a data da exumação e o futuro dos restos mortais de Lorca.

A família estuda várias possibilidades: levá-lo a Nova York para o jazigo do pai dele, a Madri, onde estão enterradas a mãe e as irmãs, espalhar as cinzas por lugares onde ele morou ou sepultá-lo no mesmo local onde está a vala comum.

“Talvez o deixemos ali (Barranco de Víznar), ele morreu assim, mataram-no dessa maneira...” completou Laura, convencida de que, apesar da polêmica, as exumações não servirão para alterar qualquer dado da biografia do poeta porque a história dele já está escrita.

fonte: BBC-Brasil

domingo, 14 de setembro de 2008

Sapiranga Digital: Internet ao alcance de todos

Prefeitura Municipal lança o projeto Sapiranga Digital. Toda a população sapiranguense terá direito de acesso gratuito à Internet e contemplará serviços on-line, tais como: e-mail, ouvidoria, educação à distância, consulta ao acervo de livros da Biblioteca Municipal, informações, entre outros.

Com a autorização concedida pela ANATEL, o Município torna-se provedor de acesso à rede de computadores.

O projeto, na sua primeira etapa, contemplará a construção de sete torres de repetição com tecnologia wi-fi (2.4 Ghz), todas localizadas em pontos estratégicos para disponibilizar a abrangência desejada. O sinal de cobertura de cada repetidora tem uma abrangência de um raio de 3 km de distância, podendo sofrer pequenas alterações, onde cada usuário fará jus a um link compartilhado de 300 kbps. Junto com a construção das torres de repetição, será concebido um site.

Quem quiser utilizar o sistema deverá efetuar um cadastro on-line ou na sede da Prefeitura, em data a ser combinada pela comissão organizadora.

Com essas implementações, Sapiranga dá um passo significativo rumo a sociedade da informação: o cidadão poderá buscar na Internet as informações que lhe convém bem como interagir com outras pessoas e culturas.

Para receber o sinal na sua residência o usuário deverá possuir um kit composto por uma antena de recepção e um rádio (placa de rede wi-fi) trabalhando em modo cliente. É importante salientar que a instalação dos equipamentos é por conta do usuário.

Na segunda etapa serão contemplados a zona rural do Município assim como as localidade que enfrentarem alguma dificuldade técnica na primeira etapa.

Outra implementação importante é o da telefonia VOIP. Com esse sistema, todos os prédios públicos da Prefeitura terão comunicação gratuita entre si, reduzindo, portanto, as despesas com telefonia.

A estrutura de servidores será da HP com slackware, incluindo serviços de firewall (iptables), proxy com squid e autenticação, servidor web e e-mail e sistema de gerenciamento da rede sem fio.

fonte: dicas de nerd

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Morreu Fausto Wolff

Faustin von Wolffenbüttel (1940-2008) foi correspondente de guerra, escritor, dramaturgo, professor de literatura nas universidades de Copenhague e Nápoles. Editou o Pasquim e colaborou com a saudosa revista Bundas, onde criou o hilariante personagem Nathaniel Jebão, colunista social ultra-reacionário e racista. Pretendo resgatar trechos dessas colunas ocasionalmente.

O velho Lobo possuía uma página eletrônica, onde é possível conhecer alguns de seus textos. Foi-se um grande boêmio, comunista teimoso, gênio da crônica. Abaixo, em texto de 2006, ele comenta um derrame que sofreu.

“Outro dia quase bati as botas. Fechado o expediente, fiquei bebendo uísque enquanto olhava o mar. À medida que bebia, mais o mar se agitava, me agitando também. Tive uma idéia genial e voltei ao computador, mas - vejam só - não conseguia escrever as frases direito. Era sempre aprotaledo pelas pavrolas. Retornei à janela, fiquei vendo o mar e tendo idéias geniais. Bebi mais algumas doses de uísque e, quando minha mulher voltou do trabalho (é, meus filhos, alguém tem de prover), contei-lhe o que ocorrera. Ela: ''Você teve um princípio de enfarte ou um princípio de isquemia'', e, sob meus discretos protestos, arrastou-me ao hospital.

Colocaram-me num leito ao lado de muitos outros, separados por um lençol. Braços furados por mil agulhas, fui vítima de um clister e do resultado do clister, tudo isso em meio a dezenas de pessoas que fingiam ignorar minha indiscreta performance. Lá pelas nove da manhã fugi do hospital e fui caminhando por Ipanema. Acabei num boteco em frente ao estúdio do Millôr, na Gomes Carneiro. Tomei um conhaque, comi um sanduíche de pernil e fumei um cigarro. Bateu-me a vontade de escrever um poeminha. Pedi lápis e caneta, mas as mãos não obedeciam ao cérebro.

Só depois de desenhar mentalmente a letra é que conseguia reproduzi-la no papel e ainda assim muito mal. Desisti do poema e fui pedir a opinião do Millôr, que há 50 anos é uma espécie de irmão mais velho. Aconselhou-me a voltar ao hospital, o que fiz de táxi desta vez. As enfermeiras me receberam de braços abertos e nem me torturaram. Tivera mesmo uma isquemia. Três dias depois, feitos todos os exames, me mandaram embora e proibiram-me de fazer as três coisas de que mais gosto: ver Mannhattan connection, discutir com adolescentes e ler originais não solicitados.

Caíram nessa? Não acredito. É isso mesmo que vocês pensaram. Estou proibido de fumar, beber e procriar, pois, no meio de uma dessas atividades, o sangue pode derrapar na veia e sair da pista da minha vida, que pode não ser grande coisa mas é minha. Por isso nunca mais fumei, bebi e procriei ao mesmo tempo.

Tudo tem seu tempo certo.

fonte: Guilherme Scalzilli

11/09




Seguramente, esta será a última oportunidade em que poderei dirigir-me a vocês. A Força Aérea bombardeou as antenas da Rádio Magallanes. Minhas palavras não têm amargura, mas decepção. Que sejam elas um castigo moral para quem traiu seu juramento: soldados do Chile, comandantes-em-chefe titulares, o almirante Merino, que se autodesignou comandante da Armada, e o senhor Mendoza, general rastejante que ainda ontem manifestara sua fidelidade e lealdade ao Governo, e que também se autodenominou diretor geral dos carabineros.

Diante destes fatos só me cabe dizer aos trabalhadores: Não vou renunciar! Colocado numa encruzilhada histórica, pagarei com minha vida a lealdade ao povo. E lhes digo que tenho a certeza de que a semente que entregamos à consciência digna de milhares e milhares de chilenos, não poderá ser ceifada definitivamente. [Eles] têm a força, poderão nos avassalar, mas não se detém os processos sociais nem com o crime nem com a força. A história é nossa e a fazem os povos.

Trabalhadores de minha Pátria: quero agradecer-lhes a lealdade que sempre tiveram, a confiança que depositaram em um homem que foi apenas intérprete de grandes anseios de justiça, que empenhou sua palavra em que respeitaria a Constituição e a lei, e assim o fez.

Neste momento definitivo, o último em que eu poderei dirigir-me a vocês, quero que aproveitem a lição: o capital estrangeiro, o imperialismo, unidos à reação criaram o clima para que as Forças Armadas rompessem sua tradição, que lhes ensinara o general Schneider e reafirmara o comandante Araya, vítimas do mesmo setor social que hoje estará esperando com as mãos livres, reconquistar o poder para seguir defendendo seus lucros e seus privilégios.

Dirijo-me a vocês, sobretudo à mulher simples de nossa terra, à camponesa que nos acreditou, à mãe que soube de nossa preocupação com as crianças. Dirijo-me aos profissionais da Pátria, aos profissionais patriotas que continuaram trabalhando contra a sedição auspiciada pelas associações profissionais, associações classistas que também defenderam os lucros de uma sociedade capitalista. Dirijo-me à juventude, àqueles que cantaram e deram sua alegria e seu espírito de luta.

Dirijo-me ao homem do Chile, ao operário, ao camponês, ao intelectual, àqueles que serão perseguidos, porque em nosso país o fascismo está há tempos presente; nos atentados terroristas, explodindo as pontes, cortando as vias férreas, destruindo os oleodutos e os gasodutos, frente ao silêncio daqueles que tinham a obrigação de agir. Estavam comprometidos. A historia os julgará.

Seguramente a Rádio Magallanes será calada e o metal tranqüilo de minha voz não chegará mais a vocês. Não importa. Vocês continuarão a ouvi-la. Sempre estarei junto a vocês. Pelo menos minha lembrança será a de um homem digno que foi leal à Pátria. O povo deve defender-se, mas não se sacrificar. O povo não deve se deixar arrasar nem tranqüilizar, mas tampouco pode humilhar-se.

Trabalhadores de minha Pátria, tenho fé no Chile e seu destino. Superarão outros homens este momento cinzento e amargo em que a traição pretende impor-se. Saibam que, antes do que se pensa, de novo se abrirão as grandes alamedas por onde passará o homem livre, para construir uma sociedade melhor.

Viva o Chile! Viva o povo! Viva os trabalhadores! Estas são minhas últimas palavras e tenho a certeza de que meu sacrifício não será em vão. Tenho a certeza de que, pelo menos, será uma lição moral que castigará a perfídia, a covardia e a traição.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

DESFORMAS e "Leitura dos três livros": debates sobre O capital de Marx.

Desformas
Começa nesta semana a nova rodada do grupo de estudos d`O Capital de Karl Marx na USP, sexta-feira dia 05/09 ocorrerá o debate sobre o capítulo V do livro I, no auditório da Geografia/USP às 14h30, o debate será organizado pelo Prof. Ruy Braga. No dia 17/09 será debatido os capítulos XXII e XXIV com o Prof. Hector Benoit (da Unicamp), na sala 12 do Dep. de Ciências Sociais da USP.

"O Centro de estudos Desmanche e Formação de Sistemas Simbólicos, vinculado aos departamentos de Artes Plásticas e de Cinema, Rádio e TV da ECA-USP, constitui um foro de debates e reflexões multidisciplinares, de corte histórico e materialista, congregando, em torno de questões estéticas, simbólicas e do estudo da história em geral, pesquisadores de diferentes especialidades. Não obstante a heterogeneidade inerente à variedade das especialidades de seus membros, o Centro nasce, em síntese, a partir da preocupação comum dos integrantes, com a crítica transformadora da contemporaneidade, mediada por uma perspectiva histórica voltada para a superação do capitalismo." (DESFORMAS)

Leitura dos três livros
Paralelamente realiza-se o seminário "Leitura dos Três Livros" organizado pelo CEMAX (Centro de estudo marxistas - UNICAMP), que acontece na sede do Sindicato dos Jornalistas, à Rua Rego Freitas, 530 - (Metrô República) São Paulo.

Após a apresentação sintética dos livros I e II (26 de Maio a 10 de Novembro de 2008) será retomada a leitura detalhada de O Capitala a partir do livro III, "uma leitura capítulo a capítulo".
Mais informações e calendário clique aqui.

domingo, 31 de agosto de 2008

8 Razões Para Aprender Psicologia no Ensino Médio

1 - A Psicologia, enquanto ciência, apresenta um conjunto de teorias e estudos contemporâneos voltados para uma formação humanizadora do jovem.

2 - Os estudos da Psicologia permitem uma relevante leitura das relações sociais e culturais na constituição dos sujeitos sociais.

3 - A Psicologia possibilita que o jovem compreenda os fatores constitutivos da subjetividade humana, do desenvolvimento da personalidade, da vida comunitária e das novas organizações familiares.

4 - A Psicologia tem contribuições específicas a dar como disciplina ao discutir temas como direitos humanos, humilhação social, preconceitos, processos de desenvolvimento e da aprendizagem.

5 - A Psicologia utiliza-se de metodologias interativas e compreensivas de maneira a permitir que os conteúdos tenham sentido e significado para o aluno que deles se apropria.

6 - A Psicologia possibilita o uso de estratégias de aprendizagem e de auto-monitoramento do estudo cujo objetivo é o desenvolvimento de autonomia e da aprendizagem auto-regulada.

7 - O número de professores licenciados no Brasil, habilitados para ministrar a Psicologia, é suficiente para atender à demanda das escolas de Ensino Médio do País.

8 - A Psicologia contribui de forma direta para a concretização dos objetivos do ensino médio estabelecidos pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional-LDB favorecendo a construção de sujeitos autônomos e democráticos.

Apóie esta luta!

sábado, 30 de agosto de 2008

Encarnação do Demônio

Pasolini? Buñuel? Jodorowsky? Não José Mojica Marins!

Estava eu aguardando o lançamento desse filme desde que começou a circular na Internet o trailer da mais nova obra do sr Mojica, onde ele retorna a seu personagem que o consagrou, Zé do Caixão.

Essa é a terceira parte de uma saga que começou nos anos 60 que devido a problemas com censura. Nos anos de chumbo o filme nunca conseguiu apoio na época e mesmo se tivesse conseguido teria sido mutilado, afinal a tesoura da censura tinha fome de José Mojica Marins, que foi um dos cineastas que mais sofreram com a repressão política e cultural que assolava o Brasil e os mentecaptos que eram colocados na cadeira de controle das Diversões Públicas, sempre viam em Mojica um degenerado, uma pessoa que era perigosa com seus filmes recheados de sangue.. Com essas atitudes quase jogaram Mojica no ostracismo, mas ele insolente a todas as adversidades que se interpunham entre ele e seu trabalho, nunca parou, se sujeitou quase a fome e a miséria por sua arte.

Sempre teve a seu lado cineastas que viam nele um gênio, um cineasta visceral, maldito, as vezes grosseiro mas dono de uma estética impressionantemente forte, de deixar os cabelos arrepiados dos que achavam que faziam um cinema engajado, seminal e agressivo as imagens fortes impressionaram cineastas como Rogério Sganzerla, Carlos Reichenbach, e Luis Sérgio Person assim como Glauber Rocha que conseguiram entender que Mojica era uma força que não se via nem nas mais aterradoras obras de Luis Buñuel . Sua visceralidade fluía naturalmente , mesmo sem a instrução formal de cinema , mojica nos grandes filmes "à meia noite levarei sua alma " e " esta noite encarnarei em teu cadáver" conseguiu levar as telas seus piores pesadelos, cenas impressionantes perturbadoras e nunca antes tentadas por ninguém .

Mas mesmo com essas qualidades e com sua criatividade de conseguir fazer filmes impressionantes com baixíssimos orçamentos, Mojica só conseguiu mesmo perseguição ao seu trabalho, e depois de muitos anos trabalhando em obras alheias, fazendo esporadicamente seus filmes com orçamentos cada vez mais apertados e com a censura cada vez mais recrudescida quando se tratava de seu nome, seu sonho de fazer o seu filme mais desejado ficava cada vez mais distante.

Muito tempo depois quase 40 anos se passam, quando Mojica consegue finalmente fazer aquele que é seu filme mais caro e mais bem produzido, mesmo assim mantendo sua marca calcada na visceralidade, seu empenho em ir alem de onde qualquer outro já foi, ousar sem pudores, ir onde os anêmicos diretores de cinema de terror atuais nunca sonharam, acabando com a pasmaceira, com imagens aterradoras de pessoas crucificadas sendo comidas vivas, bocas sendo costuradas, suspensões por ganchos (sempre reais), uma ode ao mau gosto mas poético como um filme de jodorowsky, com uma menina saindo e dentro de um porco ou outra sendo mergulhada em um tonel de vísceras, escatologia a moda de Pasolini? Não de José mojica Marins que faz os olhos desviarem de cenas fortes, mas seduzem pela riqueza de cores de texturas, um poeta das vísceras, uma fotografia primorosa, como nunca, a força das imagens brotam em cada plano atravessam a tela, Mojica consegue atingir, consegue incomodar, não deixa ninguém passivo e isso sim é um feito. A saga de Zé do caixão a procura de seu filho perfeito e sua mulher superior faz o filme ser difícil de classificar não é só um filme de terror, é um filme niilista, cáustico, surrealista, feito nas entranhas de são Paulo, por um cineasta que mostra que como seu personagem, esta vivo e voltou triunfante.

O vigor com que Mojica capta suas imagens são de dar inveja aos cineastas que se dizem modernos, uma orgia aos olhos e digo mais, Mojica mereceu esse filme que esta a sua altura é o mínimo que o Brasil deve a esse grande cineasta marginalizado que agora mostra uma obra forte, digna dos grandes mestres e a história esta se redimindo com esse homem, que por ser incompreendido quase foi relegado ao esquecimento, mas agora ele volta com força e pronto pra incomodar os olhos os estômagos e os moralismos dos incautos.

No final o filme é dedicado a Rogério Sganzerla, morto em 2004, que foi um grande apoiador de mojica desde o começo, que também teve problemas pra lançar seu ultimo filme "o signo do caos".

Mojica se Sganzerla estivesse vivo estaria aplaudindo na primeira fila e gritando quem tiver de sapato não sobra.

Cleiner micceno AKA reverend stalker.

PS: Jairo Ferreira fez um documentario chamado "Horror Palace Hotel" que é sobre o Mojica e também é homenageado no final do filme.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

É uma questão de sobrevivência

Estudo diz que homens polígamos vivem mais.

Uma pesquisa da Universidade de Sheffield, Reino Unido, divulgada na semana passada pela revista "New Scientist", afirma que homens de países que aceitam a poligamia podem viver em média 12% mais do que aqueles que moram em nações monogâmicas.

Para Virpi Lumma, pesquisadora responsável pelo estudo, fatores genéticos e sociais poderiam explicar a maior longevidade. Homens com idade avançada continuam férteis, ao contrário das mulheres, e isso seria mais forte naqueles que vivem em países poligâmicos, onde podem ter filhos com diversas mulheres, com idades diferentes. Com isso, acabam também levando uma vida mais saudável, a fim de sustentar a numerosa família. Enquanto que em países monogâmicos, muitas vezes homens perdem suas esposas e ficam sem ter ninguém para cuidar deles.

Os cientistas também argumentam que a evolução da espécie humana pode ter favorecido os homens de sociedades poligâmicas.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Candidatos a ditador

Jornalismo é publicar o que alguém não quer que seja publicado; todo o resto é publicidade.

George Orwell



Serra em São Paulo, e Lippi em Sorocaba, adotam as mesmas práticas.

No caso do governador José Serra, há poucos dias, através da Justiça, impediu a divulgação, nas grandes rede de TV, de um anúncio sobre a greve dos policiais civis paulistas.

Fica uma constatação: não há jornalismo independente sem publicidade governamental ou de grandes grupos econômicos. Diante disso, como fazer jornalismo?

E a imprensa alternativa? Os sindicatos, associações e ONGs, devem financiar órgãos independentes de comunicação, para divulgarem suas posições, ou, antes, uma cobertura isenta?

A internet será um campo novo para romper com o oligopólio desse tipo de mídia?

O debate está aberto.

fonte: Bah!Caroço

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Por que lutamos?

Convido todos os leitores do blog para a exibição do vídeo-documentário "Porque lutamos! Resistência à ditadura militar", na próxima sexta-feira, dia 22, às 20 horas, no auditório da Fundec.

"Porque Lutamos! Resistência à ditadura militar"

Uma morte brutal durante o governo do general Emílio Garrastazu Médici marcou a vida de milhares de brasileiros, militantes ou não. De todos os meios: estudantil, operário, católico, acadêmico...

Em 16 de março de 1973 o sorocabano Alexandre Vannucchi Leme foi levado preso e torturado. Amanheceu morto na cela x-zero do Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna, o temido DOI-CODI. Ele tinha 22 anos e cursava o quarto ano de geologia da Universidade de São Paulo (USP).

O documentário "Porque Lutamos! Resistência à ditadura militar", da jornalista Fernanda Ikedo, traz, por meio de depoimentos, a história desse estudante que desafiou o autoritarismo e arriscou sua vida manifestando suas críticas à ditadura.

São sete pessoas que contam suas trajetórias de luta, de como atuaram pelo fim da ditadura militar e o que representou a morte de Alexandre. Elas se posicionaram contra: a censura, a repressão e todas as arbitrariedades geradas por um ciclo de generais que comandaram o Brasil, de 1964 a 1985.

Os entrevistados são: Adriano Diogo, Aldo Vannucchi, Egle Vannucchi, João dos Santos Pereira, Maria Ap. de Aquino, Miguel Trujillo e Osvaldo F. Noce.

O que mudou na vida de cada um após o golpe de Estado e com a implantação da ditadura no País?

Sem sucumbir ao silêncio, esses atores da história brasileira contemporânea destacam as conseqüências do rompimento das liberdades democráticas e afirmam que não abdicaram de suas convicções por um Brasil melhor. Cheios de energia mostram que há ainda muito que transformar.

O documentário tem 55 minutos de duração e foi produzido com o Apoio Institucional da Prefeitura de Sorocaba, por meio da Secretaria de Cultura, Lei de Incentivo à Cultura nº 5736/98 (LINC) .

Fernanda Ikedo é jornalista e publicou em 2003 o livro-reportagem "Ditadura e repressão em Sorocaba: Histórias de quem resistiu e sobreviveu", com o apoio da LINC (Lei Municipal de Incentivo à Cultura).

Roteiro, direção e edição: Fernanda Ikedo
Pós-produção: José Carlos Fineis (Loja de Idéias)
Fotografia: Juca Mencacci
Pesquisa: Fernanda Ikedo
Trilha Original: Maurício Toco
Arranjo de Cordas: Marcos Boi
Mixagem/Masterização: João Leopoldo
Narração: Nanaia de Simas

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Boa notícia na luta contra a censura na internet

Os deputados Jorge Bittar (PT-RJ) e Paulo Teixeira (PT-SP) apresentaram hoje (07/08) um requerimento de audiência pública para discutir o projeto de crimes cibernéticos (PL 84/1999) na Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática da Câmara.

O requerimento de audiência pública deve entrar na próxima pauta da reunião, na quarta (13/08). A justificativa dos deputados é a polêmica que a matéria vem causando, com denúncias de promover censura na internet.

O projeto aprovado no Senado vai tramitar com regime de urgência, e deve chegar à Comissão de Ciência e Tecnologia nos próximos dias. As comissões de Segurança Pública e CCJ também vão analisar as mudanças feitas no Senado.

fonte: Blog do Sérgio Amadeo

sábado, 9 de agosto de 2008

Monsanto na USP

relações entre o público e o privado.

Transnacionais estadunidenses avançam sobre setores estratégicos do Estado brasileiro. Maior instituição de ensino firma convênio com transnacional líder no setor de transgênicos, com cláusula de sigilo; já empresa ligada à Halliburton – também dos EUA – administra o banco de dados da ANP

*Do Brasil de Fato http://www.brasilde fato.com. br/v01/agencia*

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Internet multiplica formador de opinião

Vivíamos até outro dia em um País com meia dúzia de formadores de opinião, desde sempre encastelados na imprensa de papel, quer dizer, em jornais e revistas. Para a direção que eles indicavam, o chamado povo deveria seguir, reproduzindo seus pensamentos, gostos, preferências e votos, automaticamente.

Senhoras e senhores, devo informar que este tempo acabou. Opinião pública deixou de ser sinônimo de opinião publicada, como ficou bem provado já nas eleições presidenciais de 2006.

Com seu governo encurralado nas cordas pela grande mídia nacional durante meses seguidos, na mais longa crise política da história recente, o presidente Lula acabaria se reelegendo com mais de 60% dos votos.

À parte o carisma do presidente e sua fantástica capacidade de sobrevivência em situações adversas, praticamente desde que nasceu, o fato é que algo de novo estava acontecendo em nosso País.

Como não tivemos nenhuma reforma política, e os meios de comunicação impressos e eletrônicos continuavam nas mãos dos mesmos donos mantendo suas mesmas opiniões, este fato novo só pode ter sido conseqüência de uma democratização das fontes de informação, matéria prima para a formação da opinião pública.

E como isso se tornou possível? Não disponho de pesquisas nem estudos científicos. Mas, como repórter que vive viajando por todo canto neste País, arrisco dizer que foi a internet o instrumento utilizado por largas camadas da população para virar o jogo.

Elas se tornaram ao mesmo tempo produtoras e receptoras de informação, quer dizer, simultaneamente fontes e leitores, não mais meros consumidores passivos das opiniões alheias.

De lá para cá, houve um crescimento vertiginoso dos brasileiros com acesso à grande rede da internet, o que pode ser comprovado pelos números da pesquisa Datafolha publicada segunda-feira no “Meio e Mensagem”.

A pesquisa foi feita apenas com maiores de 16 anos, ou seja, todos eleitores, e apurou índices que me surpreenderam e corroboram o que escrevi acima:

• O Brasil tem hoje 59 milhões de internautas, cerca de um terço da sua população.

• Quase a metade dos adultos (47%) já tem acesso à internet.

• Dois em cada três internautas (67%) navegam nos equipamentos instalados em locais públicos.

Sem muito medo de errar, podemos dizer que, em relação às eleições gerais de 2006, praticamente dobrou o número de eleitores com acesso à internet. Esta é, portanto, a primeira eleição municipal em que teremos o uso intensivo da web tanto por candidatos como por apoiadores e eleitores.

Acrescente-se a isso uma revelação feita por outra pesquisa recente do Datafolha sobre o comportamento dos jovens brasileiros: na faixa entre 16 e 22 anos, a internet já superou a TV como principal fonte de informação.

E mais: na grande maioria dos quase seis mil municípios brasileiros, fora dos grandes centros, os candidatos não têm acesso ao horário gratuito do rádio e da televisão, a melhor forma que encontramos, antes do advento da internet, para que todos possam apresentar suas propostas.

Poder político, poder econômico e poder da comunicação costumam andar de braços dados principalmente nos períodos eleitorais, quando entram em jogo interesses de toda ordem, exacerbando um quadro de abusos e privilégios. Quem pode denunciá-los? Os próprios cidadãos-eleitores, por meio da internet.

E como fica o jornalista nesta história? Simplesmente, faltam-nos pernas e, muitas vezes, iniciativa e disposição para ver o que acontece nas campanhas nos grotões do Brasil, onde a imprensa ainda está atrelada a grupos políticos oligárquicos habituados a agir acima e fora da lei.

Muitas vezes, não se trata apenas do atrelamento político-partidário que coloca jornais e emissoras a serviço do poder municipal.
Trata-se de uma simples questão de sobrevivência, já que as Prefeituras são os principais _ quando não únicos – anunciantes destes veículos.

O controle das Prefeituras sobre os meios de comunicação convencionais, somado ao enorme poder do chefe do executivo que é candidato à reeleição, nos dá uma idéia de como é cada vez mais difícil a vida dos candidatos de oposição, impedindo o surgimento de novas lideranças.

Enquanto escrevo, num breve intervalo para o café, dou uma olhada nas últimas notícias e leio no portal da “Folha”: “Disputa eleitoral em Alagoas é na bala”, diz secretário de Defesa Social. Sem meias palavras, diz Paulo Rubim, o secretário alagoano: “em Prefeituras e regiões onde estes políticos (envolvidos com a pistolagem) têm base eleitoral, não há disputa pelo voto. A disputa é na bala. Nestes municípios nem se criou oposição, não há partido de oposição que forme um líder. Se alguém começa a se manifestar, desaparece”.

Pois é exatamente diante deste quadro de vale tudo que a internet se torna cada vez mais um instrumento vital para a democratização das informações e a denúncia dos abusos.

Mas regras recentemente estabelecidas pelo TSE apontam na direção contrária: procuram restringir o uso da internet na campanha eleitoral, limitando seu uso aos sites oficiais dos candidatos, como se fosse possível controlar milhões de mensagens a cada dia colocadas para circular na grande rede.

Parece praga: cada vez que a própria sociedade cria seus instrumentos para participar do processo e fortalecer a democracia, sem os antigos intermediários, o poder público cria dificuldades para perpetuar as facilidades de quem não quer largar o osso.

Por isso, acho que temos a obrigação de contribuir, cada um na sua área e dentro dos seus limites, para que a democracia seja não apenas de fachada, mas uma razão de vida na construção de uma sociedade mais justa e mais fraterna.

Eleitor, só tem um jeito de não reclamar depois: defenda-se! A internet é a nossa silenciosa e pacifica arma, cada vez à disposição de mais brasileiros.

Ricardo Kotscho

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Abaixo-assinado. Justiça para Merlino

Segue link para abaixo-assinado em apoio à iniciativa da família do jornalista Luiz Eduardo Merlino, assassinado pela ditadura militar, de mover uma ação civil declaratória contra o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, que comandava o Doi-Codi de São Paulo, quando do assassinato de Merlino sob torturas, em 19 de julho de 1971. A iniciativa foi do jornalista Alípio Freire.
No próximo dia 12 será julgado o recurso movido pelo advogado do coronel Ustra. Se os deseembargadores acatarem o pedido, a audiência sequer ocorrerá.
Peço aos que concordarem com o texto do documento, que assinem e distribuam para suas listas.
Para que não se esqueça,
Para que nunca mais aconteça!
Mais detalhes vocês podem ler no texto do abaixo-assinado e nos links das matérias de diversos jornais e sites que também estão lá.
O link para o abaixo-assinado é:

http://www.petitiononline.com/4bnpdsa5/petition.html

terça-feira, 29 de julho de 2008

Quanto custa pintar uma lombada?

Quatrocentos e setenta e cinco reais é o valor que a Prefeitura de Sorocaba vai gastar com a pintura de cada uma das 400 lombadas da cidade. Saiu hoje essa notícia em uma notinha, sem foto, no jornal Cruzeiro. Apesar de faltar o primeiro parágrafo da nota, pois começa no meio da frase, dá para entender que serão gastos R$ 190 mil com tintas, que deve ser pra lá de especial.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

"W." de Oliver Stone



Saiu o primeiro trailer de “W.”, um filme de Oliver Stone sobre a trajetória de George Bush.

Chega às salas de projeção em novembro, às vésperas do encontro do eleitor americano com as urnas.

Em meio à atmosfera de fim de feita vivida na Casa Branca, Stone traça um perfil realista do inquilino que sai.

O enredo evolui da juventude de Bush –temperada à base de bebedeiras, detenção e arengas familiares—até a chegada do personagem ao poder.

Num dos diálogos, Bush, o filho, é admoestado por outro Bush, o pai: "Quem você pensa que é, um Kennedy? Você é Bush, haja como um!"

fonte: Josias de Souza

domingo, 27 de julho de 2008

João Ubaldo Ribeiro recebe o prêmio Camões

O escritor brasileiro João Ubaldo Ribeiro ganhou o Prêmio Camões 2008, o mais importante reconhecimento a autores da língua portuguesa, criado pelos governos do Brasil e de Portugal em 1988. Ele é o oitavo brasileiro a ganhar o prêmio que, nesta 20ª edição, premia o eleito pelo conjunto da obra com 100 mil euros.

O escritor afirmou estar feliz com a premiação, mas chateado com a falta de tempo para escrever seu novo romance:

"O prêmio integra a literatura de língua portuguesa. Ele é o reconhecimento do meu papel nessa literatura".

Os outros brasileiros que receberam o mesmo prêmio foram: João Cabral de Melo Neto (1990), Rachel de Queiroz (1993), Jorge Amado (1994), Antônio Cândido de Mello e Sousa (1998), Autran Dourado (2000), Rubem Fonseca (2003) e Lygia Fagundes Telles (2005).

O Prêmio Camões do ano passado foi entregue nesta sexta-feira para o escritor português Antonio Lobo Antunes, em uma cerimônia que teve a presença do presidente do Brasil. Na ocasião, Lula destacou a importância do prêmio por "fortalecer as manifestações literárias da rica e diversificada cultura dos países de língua portuguesa".

De João Ubaldo, recomendo sempre o caudaloso Viva o Povo Brasileiro!

sábado, 26 de julho de 2008

É positiva a divulgação pela AMB da lista de candidatos com “ficha suja”?

É IMPORTANTE distinguir dois aspectos da questão: em primeiro lugar, é preciso deixar claro que o ajuizamento de um processo é informação pública, ao alcance de qualquer pessoa e -como tudo o mais que envolve um candidato, de sua aparência física a sua opção ideológica- é passível de ser tomado em conta pelo eleitor para sua escolha; imprensa, ONGs, blogs prestariam relevante serviço público com essa divulgação. O segundo ponto é relativo ao acerto ou não da publicação de uma “lista suja” por associação de juízes e, nesse caso, minha opinião é negativa.

A percepção pública é que uma associação de magistrados é a reunião das pessoas que exercem o poder judiciário, daí a enorme autoridade moral, confundível até mesmo com a instituição que os associados encarnam.

Ora, como podem aqueles que têm a missão de julgar emitir um juízo de valor antes desse pronunciamento e da própria defesa? E, por mais que o neguem, emitem -sim!- juízo de valor, que se traduz no adjetivo “suja” que acabou pespegado à tal lista.

Não é função da AMB dar informações ao eleitorado. Seu gesto não foi, portanto, puramente informativo. Na verdade, o juízo de valor negado está embutido na mensagem de que os magistrados brasileiros reprovam as candidaturas de acusados que não foram julgados ou dos que nem sequer puderam se defender. É um passo político em direção à inelegibilidade. Nas trevas do regime militar, o general Médici sancionou lei complementar que tornava inelegíveis -”enquanto não absolvidos”- os meramente acusados por alguns crimes, como de corrupção ou o delito então criado de argüir inelegibilidade por engano, se o erro fosse “grosseiro”.

Todos os que tinham um mínimo de apreço ao direito bradavam contra essa violência da ditadura, derrogada com seu declínio. E eis que agora a idéia ressurge, mais violenta ainda.

De fato, a lista engloba acusações por todo e qualquer delito, bem como simples ações civis de improbidade, por fatos nem sequer criminosos.

Rebaixam-se os juízes quando conferem tanto poder a uma das partes no processo, o Ministério Público.

Basta que seja ele o requerente para que o ferrete caia sobre o demandado, havendo ou não imputação de crime.

Tomemos um exemplo: Luiza Erundina, uma das pessoas mais honestas que já ocuparam cargo público em São Paulo, foi processada pelo Ministério Público -sim, por ele mesmo- porque firmou um contrato, sem ônus para os cofres públicos, que permitiu a reforma do autódromo de Interlagos em troca de publicidade na pista e colocou a cidade no calendário da Fórmula 1, com enormes benefícios. Ficha suja?

Esse termo é fascistóide. O que é ficha suja? Acusação sem defesa, anotação no Serasa, condomínio não pago e protestado em cartório, sussurros de “não sei, não”, é muito fácil sujar a ficha de alguém. Como disse Paulo Sérgio Leite Fernandes, isso vem da tosca idéia de que, “onde há fumaça, há fogo”, e, acrescento, “não basta à mulher de César ser honesta, tem que parecer honesta”, ou seja, devemos julgar as pessoas pelas aparências, não pelo que são. E são juízes os proponentes…

Escravos aos leões, enforcamentos em praça pública, autos-de-fé com gente ardendo na fogueira sempre foram, ao longo da história, campeões de audiência. Nossa sociedade midiática só aprofunda o sucesso das execuções sem julgamento e sem “formalidades” que protejam os direitos individuais.

Na verdade, o patrocínio da AMB à divulgação da lista -obtida com a colaboração de seus associados, que usaram recursos públicos para atender a entidade- prenuncia um movimento para dar a uma só parte, o Ministério Público, o poder absoluto e unilateral de proibir o povo de escolher certos candidatos. Isso atropela, de uma só vez, as garantias constitucionais do direito de defesa, do devido processo legal e da presunção de inocência. Dessa tutela, tão própria das ditaduras, ninguém precisa.

Democracia se faz com escolhas populares, fundadas ou infundadas, boas ou más. É um regime muito ruim, reconheceu Churchill, pena que não inventaram outro melhor.

Melhor deixar as decisões políticas nas mãos do povo que dos sábios.

ARNALDO MALHEIROS FILHO, 58, advogado criminalista, é presidente do Conselho Deliberativo do Instituto de Defesa do Direito de Defesa.

Tendências e Debates/FSP