domingo, 30 de novembro de 2008

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Sorocabano recebe prêmio Zumbi dos Palmares na Assembléia Paulista


O agente cultural sorocabano, Márcio Roberto Brown, será homenageado nesta quarta-feira (26/11), pela Assembléia Legislativa de São Paulo (Alesp), com o prêmio Zumbi dos Palmares. Brown foi indicado pelo deputado estadual Hamilton Pereira (PT) por ter se destacado na ação em defesa da promoção da igualdade racial e luta contra o racismo.


Membro da ONG Ação Periférica que atua junto ao segmento negro, Brown também é diretor do documentário "Hip Hop em Movimento", que conta a vida de pessoas envolvidas com essa cultura. O agente cultural iniciou no Hip Hop no final da década de 80 e permanece até hoje atuando na difusão da cultura black.

“Posso afirmar com segurança que o Brown tem uma vida dedicada ao hip hop, ao movimento negro e à busca de mudar a realidade social que permeia a vida das pessoas que integram essa parcela da população”, observa Hamilton. “Pelo seu trabalho, Brown tem obtido o reconhecimento da sociedade, tanto que se tornou uma forte referência em Sorocaba para as ações afirmativas em defesa da promoção da igualdade racial”, completa.

A entrega do Prêmio Zumbi dos Palmares faz parte do calendário da Semana da Cultura Negra organizada, na Assembléia Legislativa de São Paulo, pela Frente Parlamentar de Promoção da Igualdade Racial, pelo Grupo de Negros e Negras da Alesp e pela Mesa Diretora da Casa.

Zumbi nasceu escravo em 1655, fugiu para o Quilombo dos Palmares e se transformou no maior símbolo da resistência negra contra a escravidão. Zumbi e toda a comunidade do Quilombo resistiram durante muitos anos corajosamente aos ataques da milícia portuguesa. Em 20/11/1694, o líder quilombola foi capturado e morto numa emboscada.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Cidades destruídas e terroristas de verdade

Há mais de quinze anos, numa tenebrosa noite de inverno em Iowa City, eu, um amigo argentino e uma espanhola saímos de uma livraria e entramos no primeiro bar à vista. Não me lembro qual era a temperatura externa; mas como estávamos em novembro, devia ser algo próximo a seis graus centígrados, com uma margem de erro de três graus (para baixo). Pedi uma taça de conhaque, folheei um livro de poesia de Walt Whitman e, lá pelas tantas, quando me senti menos esquimó e mais brasileiro, começamos a falar sobre Buenos Aires.

Naquela época eu ainda não conhecia Buenos Aires; no entanto, essa bela cidade existia na minha imaginação: ruas, bairros, parques, bares e personagens com os quais me havia deparado na leitura de contos e romances argentinos. De alguma maneira, a cidade não me era desconhecida, e essa familiaridade livresca foi uma espécie de bússola quando visitei Buenos Aires pela primeira vez. Parecia que estava voltando para lá, e que a viagem anterior, a imaginária, era quase mais real que a verdadeira.

Lembro que o meu amigo argentino, o escritor Rodrigo Fresán, começou a criticar com ironia seu país, e em algum momento nós dois criticamos nossos respectivos países. Minha crítica era um pouco mais amarga. Disse: Há poucos anos (1992) o presidente do Brasil, acusado de corrupção, foi destituído pelo congresso. E isso depois de vinte e cinco anos de ditadura.

Tragédias não nos faltam, disse Rodrigo. Aposto com você que a história da Argentina é muito mais trágica que a do Brasil.

Antes de enumerarmos os desastres de cada pátria, nossa amiga Anatxu interveio: A Espanha não fica atrás. Somos essencialmente trágicos. Mas não vamos falar de coisas tão tristes. Vocês conhecem Barcelona? Na minha juventude eu tinha morado em Barcelona, e as lembranças da capital da Catalunha eram mais ou menos nítidas. Contei para Anatxu e Rodrigo os lugares por onde caminhava por Gracia, o bairro onde morei seis meses; enumerei ruas e bares do bairro Gótico, de Barceloneta e do velho porto mediterrâneo. (Sabe-se que alguma coisa mudou depois das Olimpíadas de 1992, mas a fisionomia da cidade não foi alterada).

Tens uma memória e tanto, disse Anatxu.

Não é isso, eu disse. É que algumas cidades européias foram destruídas durante as guerras. No Brasil, a destruição das cidades é cotidiana. Quem morou no Rio, Recife ou São Paulo na década de 1940, quase não reconhece sua cidade hoje. Quer dizer, reconhece, mas muita coisa da memória urbana foi apagada para sempre.

Tentei explicar como, a partir da década de 1970, a especulação imobiliária, a ignorância de políticos, e a ganância de certas construtoras e instituições destruíram edifícios históricos e logradouros públicos em nome do "progresso". Seria algo como derrubar os belos edifícios da Recoleta e do bairro de Gracia para construir templos religiosos horrorosos ou torres não menos horrorosas de vinte ou trinta andares.

Mas por que vocês não protestam, perguntou Anatxu.

Hesitei, pensei em indicar-lhe a leitura de Raízes do Brasil, mas optei pelo silêncio. Um silêncio que traduzia impotência ou vergonha. O mesmo silêncio que me deprime quando vejo um alto magistrado declarar que os brasileiros que combateram a ditadura eram terroristas.

Pensava nas nossas cidades destruídas e na declaração desse alto magistrado quando encontrei por acaso o Jam, um velho amigo advogado. Jam estava revoltado com a declaração do juiz da suprema corte. Que belo exemplo cívico, ele exclamou, com ironia. Quanta lucidez histórica! E quanto menosprezo pelas vítimas dos torturadores, pelos jornalistas e operários e professores e tantos outros profissionais perseguidos e demitidos sumariamente!

Meu amigo tem razão. Esse senhor togado esqueceu que os militares golpistas de 1964 interromperam com ódio e brutalidade um governo eleito democraticamente. Esqueceu que eles, os magistrados, foram humilhados e ridicularizados por esses mesmo golpistas. Quanta diferença entre esse magistrado brasileiro e o juiz espanhol Baltasar Garzón, que moveu uma ação contra o ex-ditador Augusto Pinochet, acusado de assassinar milhares de chilenos.

Talvez seja essa a resposta à minha amiga espanhola: a Lei, na América Latina, não raramente protege os algozes e difama as vítimas. E isso serve para as nossas cidades destruídas, para os julgamentos de corruptos de colarinho branco, e torturadores e assassinos a mando de um Estado de exceção. Esses, sim, foram os verdadeiros terroristas, como disse meu amigo advogado Jam.

Milton Hatoum

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

O Porquê do Desprezo à Auto-Ajuda

Saiu na revista Vida Simples uma matéria chamada "O Grande Não", que fala da dificuldade das pessoas em se opôr a algumas situações.

É, de fato, uma matéria atrativa e bem escrita. A linha fina diz: "Ter firmeza de atitude e saber negar é uma arte que pode transformar sua vida. Descubra por que é legal não ser legal o tempo inteiro". Parece interessante, não? Mas quais os efeitos disso?

A revista coloca como se fosse um problema fácil de se solucionar. Você não sabe dizer não? "Experimente ser egoísta de vez em quando!", "Se não tiver certeza do seu sim, enrole. Peça tempo para pensar.", "Mude de opinião quantas vezes quiser".

Se o problema do indivíduo fosse unicamente não saber dizer não, estaria resolvido! Mas quem disse que o ser humano é superficial, assim? Ninguém nasce simplesmente sem saber dizer não. Por trás desta dificuldade podem haver mil questões a ser trabalhadas: medo de rejeição é uma delas, sim, como a própria revista cita. Mas de onde vem esse medo de ser rejeitado? É só isso, ou este medo soma-se a algum outro fator? Será que a pessoa realmente não sabe dizer não? Ou usa este medo para justificar situações onde, no fundo, ela queria mesmo dizer sim?

Eu, pessoalmente, conheço pessoas que usam a pose do "não sei dizer não" para manipular outras. Quer comportamento mais egoísta que esse? E aí o sujeito lê na revista: "Experimente ser egoísta!" - percebem a dimensão do problema?

Sem falar nos que apelam à literatura/jornalismo de auto-ajuda para dispensar a psicoterapia. O resultado é um grande passo pra trás, pois a pessoa acredita que está melhorando, quando na verdade está reprimindo sintomas. É como tomar Engov pra ressaca e se acabar na cerveja na semana seguinte. Até fazer uma cirrose, aí ele para de beber e vai procurar tratamento.

O que está por trás de tudo isso? Uma cultura imediatista, onde tudo é muito simples, basta comprar o remédio, o livrinho, ou o que seja. Não precisa pensar, refletir, digerir. A felicidade está a um passo - basta abrir a carteira.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Não fosse o Brasil, jamais Barack Obama teria nascido

Na noite do dia 25 de setembro de 1956, estreou no Teatro Municipal do Rio de Janeiro a peça Orfeu da Conceição, do poeta brasileiro Vinícius de Morais (1913-1980). Esta peça é uma adaptação do mito grego do lendário cantor Orfeu, cuja lira, dotada de sons melodiosos, amansava as feras que vinham deitar-se-lhe aos pés. Filho da musa Calíope, ele resgatou a sua esposa Eurídice do Inferno, após ela ter sido picada por serpente. A história de Vinícius decorre numa favela carioca, durante os três dias de carnaval.

Em 1959, o diretor francês MarceI Camus transpôs a peça para o cinema. Daí surgiu o filme Orfeu Negro, com músicas de Luiz Bonfá e Tom Jobim, a negra atriz americana Marpessa Dawn, os negros brasileiros Breno Mello, Lourdes de Oliveira e Adhemar da Silva. Cheio de belas imagens, como a do romper do sol na favela, a do aparecimento da Morte numa central elétrica, e ainda com o som dos sambas empolgantes, a película baseada na obra do letrista de "Garota de Ipanema", além de alcançar grande sucesso comercial, ganhou a Palma de Ouro do Festival de Cinema de Cannes e o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em Hollywood.

Pois bem, nesse ano de 1959, uma jovem americana de dezesseis anos, extremamente branca, sem um pingo de sangue negro, chamada Stanley Ann Dunham, nascida no Kansas, resolveu assistir em Chicago ao primeiro filme estrangeiro de sua existência. Foi ver o Orfeu Negro, só com atores negros, paisagens brasileiras, música brasileira, história brasileira. Ela saiu do cinema em estado de êxtase, maravilhada. Adorou aqueles negros encantadores de um país tropical e logo admitiu:

"Nunca vi coisa mais linda, em toda a minha vida."

Depois de tal arrebatamento, a jovem Stanley embarcou para o Havaí. E ali, aos dezoito anos, ela se tornou colega, numa aula de russo, de um jovem negro de vinte e três anos, Barack Hussein Obama, nascido no Quênia. A moça branca do Kansas, influenciada pelo filme Orfeu Negro, entregou-se a ele e dessa união inter-racial, nasceu em 4 de agosto de 1961 um menino, a quem ela deu o mesmo nome do pai e que é agora, aos quarenta e seis anos, o primeiro candidato negro à presidência dos Estados Unidos.

Eis um detalhe perturbador: comparando duas fotografias, descobri enorme semelhança física entre o brasileiro Breno Mello, o Orfeu do filme Orfeu Negro, e o queniano Barack Hussein Obama, pai do filho da americana Stanley Ann Dunham.

No começo da década de 1980, ao visitar o seu filho em Nova York, a senhora Stanley o convidou para ver o filme Orfeu Negro. Segundo o depoimento do próprio Barack, no meio do filme ele se sentiu entediado, quis ir embora. Disposto a fazer isto, desistiu do seu propósito, no momento em que olhou o rosto da mãe, iluminado pela tela. A fisionomia da senhora Stanley mostrava deslumbramento. Então o filho pôde entender, como se deduz da sua autobiografia, porque ela, tão branca, tão anglo-saxônica, uniu-se ao seu pai, tão negro, tão africano...

Não há dúvida, a sexualidade às vezes percorre caminhos misteriosos, que alteram de modo decisivo os rumos da história universal.

Se não fosse o fascínio da branca mãe de Barack Obama pelo filme Orfeu Negro, ela não se entregaria ao rapaz queniano, um preto retinto.

A rigor, sem o Brasil, sem a história do poeta brasileiro Vinícius de Morais, o filme Orfeu Negro não existiria. Portanto, se não fosse o Brasil, jamais Barack Obama teria nascido.

Apresenta uma lógica perfeita, a nossa conclusão. E avanço mais: se ele for eleito, o meu país, a pátria de Lula, será a causa da mudança da historia dos Estados Unidos. Aliás, o Brasil já mudou essa história...

autor: Fernando Jorge

domingo, 2 de novembro de 2008

El Condor Pasa



El Cóndor Pasa é uma obra teatral musical, classificada tradicionalmente como zarzuela, à qual pertence a famosa melodia homônima. A música foi composta pelo compositor peruano Daniel Alomía Robles e a letra, por Julio de La Paz, (pseudônimo de Julio Baudouin). No Peru, foi declarada Patrimônio cultural da Nação, em 1993.

A história transcorre no assentamento mineiro Yapaq de Cerro de Pasco, Peru e constitui-se uma obra de denúncia social. É a tragédia do enfrentamento de duas culturas: a anglo-saxônica e a indígena. A exploração de Mr. King, dono da mina, tem sua culminação na vingança de Higínio, que o assassina. Mas, para substituí-lo, chega Mr. Cup. E a luta tem que ser reiniciada, e o condor que voa nas alturas é o símbolo da desejada liberdade.

A letra

Ó majestoso Condor dos Andes,
leva-me ao meu lar, nos Andes,
Ó Condor.
Quero voltar à minha terra querida e viver
com meus irmãos Incas, que é o que mais anseio
Ó Condor.

Em Cusco, na praça principal,
espera-me, para passearmos em
Máchu Pícchu e Huayna Pícchu.

sábado, 1 de novembro de 2008

O Mercado e os burros (ou, os burros do mercado)

Uma vez, num pequeno e distante vilarejo, apareceu um homem anunciando que compraria burros por R$10,00 cada. Como havia muitos burros na região, os aldeões iniciaram a caçada. O homem comprou centenas de burros a R$10,00, e como os aldeões diminuíram o esforço na caça, o homem anunciou que pagaria R$20,00 por cada burro.

Os aldeões foram novamente à caça, mas logo os burros foram escasseando e os aldeões desistiram da busca. A oferta aumentou então para R$25,00 e a quantidade de burros ficou tão pequena que já não havia mais interesse em caçá-los. O homem então anunciou que compraria cada burro por R$50,00! Como iria à cidade grande, deixaria seu assistente cuidando da compra dos burros.

Na ausência do homem, seu assistente propôs aos aldeões: - "Sabem os burros que o homem comprou de vocês? Eu posso vendê-los a vocês a R$35,00 cada. Quando o homem voltar da cidade, vocês vendem a ele pelos R$50,00 que ele oferece, e ganham uma boa bolada".

Os aldeões pegaram suas economias e compraram todos os burros do assistente. Os dias se passaram, e eles nunca mais viram nem o homem, nem o seu assistente, somente burros por todos os lados.

Entendeu agora como funciona o mercado de ações?

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

O mercado financeiro também tem sentimento

Pessoal, vejam esse vídeo incrível, extremamente didático sobre a crise financeira, envolvendo as hipotecas, os bancos etc... e saibam mais sobre os sentimentos do mercado.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Galo e Cruzeiro e um jazz no coração

Por ROBERTO AMARAL


Quando jogam Atlético e Cruzeiro, como acontecerá no domingo que vem, eu me lembro do meu pai.

Eu tinha 11 anos quando vi meu pai ser levado pela Polícia Política.

A gente morava ali na rua do Ouro, no bairro da Serra, perto da Volla Rizza.

Era domingo, eu acabara de acordar quando os homens da polícia apareceram na minha casa.

Eles chegaram numa Rural cor de café com leite e ficaram parados na porta, e na outra esquina, mais adiante, um Jeep do exército com dois homens dentro observavam tudo.

Foi a dona Bela, uma italiana de peitos grandes, que morava defronte a nossa casa, quem avisou a minha mãe de que a polícia rondava o nosso portão.

Minha mãe desligou o telefone, abraçou o meu pai (que comia pão com manteiga) e começou a chorar.

Meu pai adorava comer pão molhado no café.

Eu fiquei ali, olhando para o chão com o cadarço do sapato desamarrado enquanto a minha mãe chorava abraçada com o meu pai.

Meu pai foi preso vestido com a camisa do Atlético.

Era a de número 9, do artilheiro Dario Peito de Aço.

Aquele domingo era dia de clássico no Mineirão e, pela primeira vez na vida, meu pai ia me levar para ver uma de suas paixões: o futebol.

Naquela época algumas reuniões do Partidão eram feitas em dias de grandes jogos no Maracanã, Morumbi, Fonte Nova, Beira Rio e nos Aflitos.

Era uma tática para despistar os caçadores de aparelho.

O meu pai foi preso ao ser denunciado por um "cachorro".

Cachorro era o nome que a polícia dava ao espião infiltrado no partido a serviço do exército brasileiro.

Acompanhei o jogo deitado na cama da minha mãe, ouvindo o mesmo radinho de cabeceira em que meu pai acompanhava a Voz do Brasil e o repórter Esso.

Enquanto ouvia o jogo, a minha mãe ficava ao telefone tentando mobilizar amigos influentes para saber notícias de meu pai.

O Atlético derrotou o Cruzeiro por três a dois e Dario Peito de Aço foi quem marcou o gol da vitória.

O genial Vilibaldo Alves parecia querer prestar uma homenagem ao meu pai narrando o terceiro gol do Galo: Adivinhe ! goooooooool Daaaarioooo! Daaaaaariooooo! Daaaaaariooo! Daaaaariooo! Peito de Aço!!!

Quando o jogo terminou, eu corri para a janela na esperança de ver o meu pai, que nunca mais voltou.

Agora, todas as vezes em que jogam Atlético e Cruzeiro eu me lembro dele, dentro do carro da Polícia Política, vestido com a camisa do Atlético.

Era a de número 9.

Todas as vezes que jogam Atlético e Cruzeiro, um jazz toca no meu coração.


*Roberto Amaral é jornalista da Rede Minas, em Belo Horizonte.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Uma reveladora experiência de rua no domingo da eleição na maior cidade do País

Como Kassab ultrapassou Marta
Por Mauro Carrara (publicado no Blog do Azenha)

Conforme costume antigo, costumo visitar velhos amigos em dias de eleição. Perambulo pela cidade à procura do "espírito" da eleição, pois, sim, cada uma tem o seu, das barbadas aos prélios mais renhidos.

Desde cedo, notei certa tendência de defecção nos redutos "progressistas". Havia nos fundos do Tucuruvi um jovem negro, em trajes de grife surfe, distribuindo discretamente santinhos de Kassab. Vejam bem, ele não fazia campanha para um candidato à vereança, mas para o majoritário. Só.

O rapaz é estudante do terceiro ano do segundo grau, comprou recentemente seu primeiro computador, a crédito. O pai é vigia (conseguiu carteira assinada há três anos) e a mãe é diarista. Ele atualmente não trabalha regularmente. Nos fins de semana, atua como assistente de som em bailes na região dos Jardins. É o típico emergente da nova classe C.

João (vamos chamá-lo assim) afirma que o governo Lula "acostuma mal os vagabundos" com o Bolsa Família. A mãe sempre votou em Marta, mas o pai costuma odiar qualquer petista. "Meu velho não quer saber do casamento gay em São Paulo, nem eu", sentencia, alisando a sobrancelha. Mais tarde, encontro-me na região do Jardim Aricanduva, na Zona Leste. Márcia (vamos chamá-la assim) come uma coxinha num bar próximo a uma escola estadual. Vai votar em seguida.

Tem uma colinha de Kassab (DEM) e de um candidato a vereador do PSDB. - Vai votar em quem?

- Dessa vez é no Kassab – revela a moça, que graças ao crescimento da renda familiar (ela e dois irmão conseguiram emprego nos últimos três anos) pôde matricular-se numa faculdade privada.

- Por que nele?

- É o menos pior...

- E pra vereador? - Voto é segredo. Mas vai ser no PSDB. Um amigo da faculdade me indicou. É um cara que escreveu vários livros de auto-ajuda.

- É o Chalita (ex-secretário estadual de educação)?

- A gente precisa de pessoas cultas na Câmara. Esse aí é o melhor escritor do Brasil. - O que você já leu dele?

- Ainda não li, porque não tenho tempo. Mas esse meu amigo diz que é muito bom.

- A Marta era mais forte por aqui, não era?

- Era, mas ela fez o apagão aéreo e mandou o povo gozar depois do estupro. Tem como uma pessoa passar uma hora, uma hora e meia, esperando o avião?

- Como?

- O povo ficar horas esperando o avião...

- É chato mesmo – respondo. – Mas você já viajou de avião? – indago.

- Nunca. O mais longe que fui na vida foi para Mongaguá (litoral sul).

- Entendo. E o trânsito em São Paulo?

- Péssimo. Entre metrô e ônibus, fico umas 4 horas e meia no transporte, todo dia. Não anda. - E de quem é a culpa? - Sei lá... Tem muito carro na rua. Precisava fazer alguma coisa.

- E você não acha que o Kassab tem alguma responsabilidade nisso?

- (silêncio)... Não sei. Não parei para pensar.

- Isso afeta sua vida, não? - Muito, mas a gente tem que lidar com isso...

Quase cinco da tarde, na região dos Jardins. O filho de um amigo chega da votação com três colegas. O rapaz é o único que votou em Marta Suplicy. Dos colegas, dois preferiram Kassab. O outro votou em Geraldo Alckmin.

- Na verdade, eu e toda minha família somos malufistas, mas o Kassab é o único que pode ganhar dessa "vaca" da Martaxa – diz Paulo (vamos chamá-lo assim), exaltado.

- Sim, as taxas devem ter prejudicado muito sua família... – pondero.

- Meu pai fez a empresa dele sem ajuda de ninguém. A gente ta cansado de pagar os impostos que o PT inventou. Cada dia tem um imposto novo.

- Que imposto novo? - Vários.

- Mas quais?

- Vários. Tudo para sustentar vagabundo nordestino. E olha que eu não sou nem um pouco racista. Tenho até amigo japonês, negro, de todo tipo. Mas com esse negócio de bolsa, o cara se acostuma a não trabalhar e fica tomando cachaça o dia inteiro. É preciso ensinar o cidadão a pescar, e não dar o peixe.

- Mas o Bolsa Família está integrado a vários projetos de promoção e inclusão. Tem a contrapartida educativa... – tento argumentar, quando sou interrompido.

- Tem nada. Isso aí é coisa da mídia que o Lula comprou.

- Mas a mídia costuma ser contra o presidente – afirmo.

- Nada disso. O senhor viaja muito, pelo que eu sei, não é? Aqui, eles inventam pesquisa para dizer que a vida do povão melhorou. Melhorou nada.

- Mas e os dados do Ipea, do IBGE?

- Eu estudo Administração. Isso é tudo mentira.

- Quer dizer que o país não melhorou em nada?

- Esse semi-analfabeto deu sorte. Aproveitou o Plano Real e o crescimento da China... Agora, quero ver. Estou só esperando para ver o que vai acontecer. E vou dar risada.

- Mas o país não estava muito bem em 2.002 – intervenho.

- O PT é o "partidão", não é?

- Não que eu saiba – respondo.

- É sim... Eu abri os olhos de muito colega sobre esse comunismo disfarçado aí... Nessa eleição, eu convenci muito petista a votar no Kassab.

- Quem?

- O nosso motorista, o jardineiro que vai lá em casa...

Já são 18h20... Alguém grita do interior da casa: "o Kassab está ganhando". Os três jovens urram de prazer. Está se iniciando a longa noite até o segundo turno.

domingo, 5 de outubro de 2008

HEGEMONIA ÀS AVESSAS

Universidade de São Paulo
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas
Campus Cidade Universitária

Anfiteatro da Geografia


Seminário Internacional do Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania – Cenedic

HEGEMONIA ÀS AVESSAS
Economia, Política e Cultura na Era da Servidão Financeira

– 21/22/23/24 de Outubro de 2008 –

21 de outubro

17:30: ABERTURA – Gabriel Cohn (USP)

19:00 – O TRABALHO APÓS O DESMANCHE

Ricardo Antunes (Unicamp)

Arne L. Kalleberg (Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill)

Yves Cohen (École de Hautes Études en Sciences Sociales - EHESS)

22 de outubro
14:00 – A CULTURA DA SERVIDÃO FINANCEIRA

Maria Elisa Cevasco (USP)

Luiz Martins (USP)

Pedro Arantes (USP)


19:00 – DOMINAÇÃO FINANCEIRA E MERCADO DE TRABALHO NO BRASIL

José Dari Krein (Unicamp)

Alexandre de Freitas Barbosa (Cebrap)

Márcio Porchmann (IPEA-Unicamp)


23 de outubro
10:00 – A AMÉRICA LATINA NA ENCRUZILHADA

Carlos Eduardo Martins (UFF)

Ary Minella (UFSC)

Gilberto Maringoni (Faculdade Casper Líbero)


14:00 –DO APARTHEID AO NEOLIBERALISMO

Dennis Brutus (Universidade de KwaZulu-Natal – África do Sul)

Omar Thomaz (Unicamp)

José Luis Cabaço (Universidade Eduardo Mondlane - Moçambique)


19:00 – O SOCIALISMO APÓS O DESMANCHE

Alvaro Bianchi (Unicamp)

Brian Palmer (Trent University)

Wolfgang Leo Maar (UFSCar)

24 de outubro
10:30 - TEATRO E DESMANCHE URBANO

Sérgio de Carvalho (Cia do Latão)

Eugênio Lima (Núcleo Bartolomeu de Depoimentos; Frente 3 de Fevereiro)

José Fernando (USP, Teatro de Narradores)

14:00 – A CIDADE E A MISÉRIA DA POLÍTICA

Cibele Rizek (USP)

Mariana Fix (USP)

João Whitaker (USP)

Carlos Viener (UFRJ)


Mostra: O CINEMA DO DESMANCHE
Coordenação: Paulo Menezes (USP)

Filmes:

“Cronicamente inviável” de Sergio Bianchi.

“Os 12 trabalhos” de Ricardo Elias.

“O invasor” de Beto Brant.

Debate sobre os filmes da mostra dia 24 de outubro com Paulo Arantes e Paulo Menezes na sala 08 às 17:30

19:00 – ENCERRAMENTO

HEGEMONIA ÀS AVESSAS: DECIFRA-ME... OU TE DEVORO!

Francisco de Oliveira (USP)

Carlos Nelson Coutinho (UFRJ)

Paulo Arantes (USP)

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Globalização do grampo

Advogado reclama a Condoleezza Rice de grampo brasileiro

O advogado do banqueiro Daniel Dantas em Nova York, Philip C. Korologos, remeteu à secretária de Estado dos Estdos Unidos, Condoleezza Rice, carta de 112 linhas, datada de 15 de setembro passado, em que reclama do governo federal do Brasil, da PF e do Ministério da Justiça. Motivo: diz que as conversas entre Daniel Dantas e o escritório de advocacia Boies, Schiller & Flexner LLP foram interceptadas pela PF.
Segundo Korologos, o direito do sigilo nas comunicações entre advogado e cliente, que é garantido por lei tanto nos Estados Unidos como no Brasil, foi violado com a interceptação de e-mails, conversas pelo sistema de telefones Skype ou mesmo videoconferências. A carta do escritório BSF para a secretária de Estado americana foi obtida com exclusividade pela revista Consultor Jurídico.
O advogado Korologos defende Dantas no processo que o Citicorp move contra o banqueiro e o banco Opportunity, referente à disputa pelo controle da operadora de telefonia Brasil Telecom. Korologos sustenta que a PF fez uso dessas conversas sigilosas, entre advogado e cliente, e as incorporou à Operaçã Satiagraha, que levou Dantas à cadeia. “Pedimos assim qualquer assistência que o Departamento de Estado possa nos dar”, roga Korologos à Secretária de Estado.
Na carta, endereçada à “honorável Condoleezza Rice”, Korologos diz que fala em nome do escritório BSF e para para trazer a seu conhecimento a interceptação, e conseqüente divulgação, de comunicações legais e do trabalho advocatício, produzidas em conexão com a chamada Operação Satiagraha, uma investigação da Polícia Federal do Brasil. “O acesso e quebra de sigilo de documentos e de trabalho legal produzido pelo escritório BSF é uma brutal violação das relações entre o escritório e seu cliente, o Oportunity. Também entendemos que tal quebra de confidencialidade viola a lei brasileira,” acrescenta o advogado americano.
Segundo Korologos, “dada a distância fizemos uso de e-mails e conferencias via fone e videofone. Isso nos EUA é protegido pela legislação, de forma a que as informações entre cliente e advogado possam fluir sem o receio que tais detalhes sejam revelados a outros. É também um princípio fundamental legal nos EUA que o produto do trabalho de um advogado, especialmente quando há ligações com uma litigância pendente, ainda em segredo de Justiça”, esteja protegido pelo sigilo”.
Korologos em seguida faz um arrazoado jurídico de 12 linhas, em que vindica o New York Civil Practice Laws and Rules, artigo 4503, a1, que prevê o segredo de justiça naquele estado americano, onde corre o processo do Citicorp contra o Opportunity. E prossegue. “Contrariamente a estas leis, desde fevereiro de 2007 a Polícia Federal do Brasil interceptou as comunicações privadas do escritório BSF e as incorporou a relatórios produzidos e preparados pela PF, que depois foram tornados públicos. “Também formos informados que membros da imprensa brasileira estão de posse de centenas, se não de milhares, de e-mails trocados entre nosso escritório e o Opportunity”.
Korologos encerra a carta pedindo a atuação do Departamento de Estado americano junto ao governo brasileiro para que se ponha fim às interceptações de comunicações entre o BSF e o Opportunity e Daniel Dantas. Pede também que sejam retirados dos autos e destruídos os documentos e informações obtidos de forma ilegal. Finalmente, pede a destruição de todas as cópias das interceptações que estejam sob o controle, posse ou custódia da Polícia Federal, Ministério da Justiça do Brasil, tribunais brasileiros e qualquer braço do governo federal do Brasil”.
Revista Consultor Jurídico, 2 de outubro de 2008

http://www.conjur.com.br/static/text/70416,1

Nova dica de filme velho


Quem me indicou "Muito Além do Jardim" foi uma antiga supervisora, para que refletíssemos sobre a ansiedade em interpretar palavras que, muitas vezes, não tinham nenhum conteúdo profundo, nada além daquilo que diziam objetivamente.


Visto por um outro lado, pode mostrar também que, no fundo, tudo depende da nossa interpretação.


"Às vezes, um charuto é apenas um charuto..."

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Ginásio de esportes de Joinville

Sonho do arquiteto Caiuby se realiza em Joinville antes de Sorocaba.

domingo, 28 de setembro de 2008

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Despojos de García Lorca serão exumados na Espanha

Os restos mortais do poeta espanhol Federico García Lorca serão desenterrados. A família do escritor autorizou a abertura da vala comum onde a ossada do escritor permanece desde que foi fuzilado na Guerra Civil da Espanha, há 72 anos.

Os descendentes de Lorca vinham resistindo a autorizar a exumação, mas cederam ante à pressão nos tribunais dos parentes de outros enterrados na mesma vala, mas temem que a exumação se transforme em um “espetáculo”.

A sobrinha do poeta, Laura García Lorca, disse nesta quinta-feira em Granada (sul do país) que a família sempre se opôs à exumação, mas que “não haverá mais impedimentos por respeito aos sentimentos de todos”.

O que ainda não está resolvido é a data da exumação e o futuro dos restos mortais de Lorca.

A família estuda várias possibilidades: levá-lo a Nova York para o jazigo do pai dele, a Madri, onde estão enterradas a mãe e as irmãs, espalhar as cinzas por lugares onde ele morou ou sepultá-lo no mesmo local onde está a vala comum.

“Talvez o deixemos ali (Barranco de Víznar), ele morreu assim, mataram-no dessa maneira...” completou Laura, convencida de que, apesar da polêmica, as exumações não servirão para alterar qualquer dado da biografia do poeta porque a história dele já está escrita.

fonte: BBC-Brasil

domingo, 14 de setembro de 2008

Sapiranga Digital: Internet ao alcance de todos

Prefeitura Municipal lança o projeto Sapiranga Digital. Toda a população sapiranguense terá direito de acesso gratuito à Internet e contemplará serviços on-line, tais como: e-mail, ouvidoria, educação à distância, consulta ao acervo de livros da Biblioteca Municipal, informações, entre outros.

Com a autorização concedida pela ANATEL, o Município torna-se provedor de acesso à rede de computadores.

O projeto, na sua primeira etapa, contemplará a construção de sete torres de repetição com tecnologia wi-fi (2.4 Ghz), todas localizadas em pontos estratégicos para disponibilizar a abrangência desejada. O sinal de cobertura de cada repetidora tem uma abrangência de um raio de 3 km de distância, podendo sofrer pequenas alterações, onde cada usuário fará jus a um link compartilhado de 300 kbps. Junto com a construção das torres de repetição, será concebido um site.

Quem quiser utilizar o sistema deverá efetuar um cadastro on-line ou na sede da Prefeitura, em data a ser combinada pela comissão organizadora.

Com essas implementações, Sapiranga dá um passo significativo rumo a sociedade da informação: o cidadão poderá buscar na Internet as informações que lhe convém bem como interagir com outras pessoas e culturas.

Para receber o sinal na sua residência o usuário deverá possuir um kit composto por uma antena de recepção e um rádio (placa de rede wi-fi) trabalhando em modo cliente. É importante salientar que a instalação dos equipamentos é por conta do usuário.

Na segunda etapa serão contemplados a zona rural do Município assim como as localidade que enfrentarem alguma dificuldade técnica na primeira etapa.

Outra implementação importante é o da telefonia VOIP. Com esse sistema, todos os prédios públicos da Prefeitura terão comunicação gratuita entre si, reduzindo, portanto, as despesas com telefonia.

A estrutura de servidores será da HP com slackware, incluindo serviços de firewall (iptables), proxy com squid e autenticação, servidor web e e-mail e sistema de gerenciamento da rede sem fio.

fonte: dicas de nerd

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Morreu Fausto Wolff

Faustin von Wolffenbüttel (1940-2008) foi correspondente de guerra, escritor, dramaturgo, professor de literatura nas universidades de Copenhague e Nápoles. Editou o Pasquim e colaborou com a saudosa revista Bundas, onde criou o hilariante personagem Nathaniel Jebão, colunista social ultra-reacionário e racista. Pretendo resgatar trechos dessas colunas ocasionalmente.

O velho Lobo possuía uma página eletrônica, onde é possível conhecer alguns de seus textos. Foi-se um grande boêmio, comunista teimoso, gênio da crônica. Abaixo, em texto de 2006, ele comenta um derrame que sofreu.

“Outro dia quase bati as botas. Fechado o expediente, fiquei bebendo uísque enquanto olhava o mar. À medida que bebia, mais o mar se agitava, me agitando também. Tive uma idéia genial e voltei ao computador, mas - vejam só - não conseguia escrever as frases direito. Era sempre aprotaledo pelas pavrolas. Retornei à janela, fiquei vendo o mar e tendo idéias geniais. Bebi mais algumas doses de uísque e, quando minha mulher voltou do trabalho (é, meus filhos, alguém tem de prover), contei-lhe o que ocorrera. Ela: ''Você teve um princípio de enfarte ou um princípio de isquemia'', e, sob meus discretos protestos, arrastou-me ao hospital.

Colocaram-me num leito ao lado de muitos outros, separados por um lençol. Braços furados por mil agulhas, fui vítima de um clister e do resultado do clister, tudo isso em meio a dezenas de pessoas que fingiam ignorar minha indiscreta performance. Lá pelas nove da manhã fugi do hospital e fui caminhando por Ipanema. Acabei num boteco em frente ao estúdio do Millôr, na Gomes Carneiro. Tomei um conhaque, comi um sanduíche de pernil e fumei um cigarro. Bateu-me a vontade de escrever um poeminha. Pedi lápis e caneta, mas as mãos não obedeciam ao cérebro.

Só depois de desenhar mentalmente a letra é que conseguia reproduzi-la no papel e ainda assim muito mal. Desisti do poema e fui pedir a opinião do Millôr, que há 50 anos é uma espécie de irmão mais velho. Aconselhou-me a voltar ao hospital, o que fiz de táxi desta vez. As enfermeiras me receberam de braços abertos e nem me torturaram. Tivera mesmo uma isquemia. Três dias depois, feitos todos os exames, me mandaram embora e proibiram-me de fazer as três coisas de que mais gosto: ver Mannhattan connection, discutir com adolescentes e ler originais não solicitados.

Caíram nessa? Não acredito. É isso mesmo que vocês pensaram. Estou proibido de fumar, beber e procriar, pois, no meio de uma dessas atividades, o sangue pode derrapar na veia e sair da pista da minha vida, que pode não ser grande coisa mas é minha. Por isso nunca mais fumei, bebi e procriei ao mesmo tempo.

Tudo tem seu tempo certo.

fonte: Guilherme Scalzilli

11/09




Seguramente, esta será a última oportunidade em que poderei dirigir-me a vocês. A Força Aérea bombardeou as antenas da Rádio Magallanes. Minhas palavras não têm amargura, mas decepção. Que sejam elas um castigo moral para quem traiu seu juramento: soldados do Chile, comandantes-em-chefe titulares, o almirante Merino, que se autodesignou comandante da Armada, e o senhor Mendoza, general rastejante que ainda ontem manifestara sua fidelidade e lealdade ao Governo, e que também se autodenominou diretor geral dos carabineros.

Diante destes fatos só me cabe dizer aos trabalhadores: Não vou renunciar! Colocado numa encruzilhada histórica, pagarei com minha vida a lealdade ao povo. E lhes digo que tenho a certeza de que a semente que entregamos à consciência digna de milhares e milhares de chilenos, não poderá ser ceifada definitivamente. [Eles] têm a força, poderão nos avassalar, mas não se detém os processos sociais nem com o crime nem com a força. A história é nossa e a fazem os povos.

Trabalhadores de minha Pátria: quero agradecer-lhes a lealdade que sempre tiveram, a confiança que depositaram em um homem que foi apenas intérprete de grandes anseios de justiça, que empenhou sua palavra em que respeitaria a Constituição e a lei, e assim o fez.

Neste momento definitivo, o último em que eu poderei dirigir-me a vocês, quero que aproveitem a lição: o capital estrangeiro, o imperialismo, unidos à reação criaram o clima para que as Forças Armadas rompessem sua tradição, que lhes ensinara o general Schneider e reafirmara o comandante Araya, vítimas do mesmo setor social que hoje estará esperando com as mãos livres, reconquistar o poder para seguir defendendo seus lucros e seus privilégios.

Dirijo-me a vocês, sobretudo à mulher simples de nossa terra, à camponesa que nos acreditou, à mãe que soube de nossa preocupação com as crianças. Dirijo-me aos profissionais da Pátria, aos profissionais patriotas que continuaram trabalhando contra a sedição auspiciada pelas associações profissionais, associações classistas que também defenderam os lucros de uma sociedade capitalista. Dirijo-me à juventude, àqueles que cantaram e deram sua alegria e seu espírito de luta.

Dirijo-me ao homem do Chile, ao operário, ao camponês, ao intelectual, àqueles que serão perseguidos, porque em nosso país o fascismo está há tempos presente; nos atentados terroristas, explodindo as pontes, cortando as vias férreas, destruindo os oleodutos e os gasodutos, frente ao silêncio daqueles que tinham a obrigação de agir. Estavam comprometidos. A historia os julgará.

Seguramente a Rádio Magallanes será calada e o metal tranqüilo de minha voz não chegará mais a vocês. Não importa. Vocês continuarão a ouvi-la. Sempre estarei junto a vocês. Pelo menos minha lembrança será a de um homem digno que foi leal à Pátria. O povo deve defender-se, mas não se sacrificar. O povo não deve se deixar arrasar nem tranqüilizar, mas tampouco pode humilhar-se.

Trabalhadores de minha Pátria, tenho fé no Chile e seu destino. Superarão outros homens este momento cinzento e amargo em que a traição pretende impor-se. Saibam que, antes do que se pensa, de novo se abrirão as grandes alamedas por onde passará o homem livre, para construir uma sociedade melhor.

Viva o Chile! Viva o povo! Viva os trabalhadores! Estas são minhas últimas palavras e tenho a certeza de que meu sacrifício não será em vão. Tenho a certeza de que, pelo menos, será uma lição moral que castigará a perfídia, a covardia e a traição.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

DESFORMAS e "Leitura dos três livros": debates sobre O capital de Marx.

Desformas
Começa nesta semana a nova rodada do grupo de estudos d`O Capital de Karl Marx na USP, sexta-feira dia 05/09 ocorrerá o debate sobre o capítulo V do livro I, no auditório da Geografia/USP às 14h30, o debate será organizado pelo Prof. Ruy Braga. No dia 17/09 será debatido os capítulos XXII e XXIV com o Prof. Hector Benoit (da Unicamp), na sala 12 do Dep. de Ciências Sociais da USP.

"O Centro de estudos Desmanche e Formação de Sistemas Simbólicos, vinculado aos departamentos de Artes Plásticas e de Cinema, Rádio e TV da ECA-USP, constitui um foro de debates e reflexões multidisciplinares, de corte histórico e materialista, congregando, em torno de questões estéticas, simbólicas e do estudo da história em geral, pesquisadores de diferentes especialidades. Não obstante a heterogeneidade inerente à variedade das especialidades de seus membros, o Centro nasce, em síntese, a partir da preocupação comum dos integrantes, com a crítica transformadora da contemporaneidade, mediada por uma perspectiva histórica voltada para a superação do capitalismo." (DESFORMAS)

Leitura dos três livros
Paralelamente realiza-se o seminário "Leitura dos Três Livros" organizado pelo CEMAX (Centro de estudo marxistas - UNICAMP), que acontece na sede do Sindicato dos Jornalistas, à Rua Rego Freitas, 530 - (Metrô República) São Paulo.

Após a apresentação sintética dos livros I e II (26 de Maio a 10 de Novembro de 2008) será retomada a leitura detalhada de O Capitala a partir do livro III, "uma leitura capítulo a capítulo".
Mais informações e calendário clique aqui.